Um dos rostos mais influentes do projecto político de Venâncio Mondlane e co-fundador da organização queixa-se de isolamento e “combate político” após manifestar intenção de disputar a liderança partidária.
Menos de um ano após o seu lançamento oficial como uma das figuras de proa e pilares de sustentação do projecto político liderado por Venâncio Mondlane, o partido Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) enfrenta a sua primeira grande crise de coesão interna.
O membro sénior e co-fundador da agremiação, Raúl Novinte, antigo edil do município de Nacala-Porto, quebrou o silêncio e lançou duras críticas à gestão da liderança partidária. Em declarações contundentes prestadas ao jornal Evidências, o experiente político moçambicano desabafou que “não há democracia no ANAMOLA”, acusando a direcção de promover o seu isolamento deliberado.
Segundo o relato de Novinte, a crise instalou-se no momento em que comunicou de forma oficial ao líder do partido a sua firme intenção de apresentar uma candidatura interna para disputar a liderança da formação política. O antigo autarca explicou que a iniciativa, longe de ser encarada como um exercício salutar de pluralismo democrático, desencadeou uma onda de hostilidades internas.
“Sim, eu tinha a clara intenção de me candidatar, e informei ao Eng. Venâncio Mondlane sobre a minha pretensão. Entretanto, dias depois comecei a ser combatido dentro do partido. Fui combatido, isolado e afastado. Daí acabei pensando outros horizontes”, revelou Raúl Novinte.
O afastamento do histórico dirigente ganha contornos de forte simbolismo político na região Norte de Moçambique. Novinte foi um dos primeiros e principais dinamizadores do movimento de massas em torno da figura de Venâncio Mondlane (o fenómeno conhecido como “venancismo”), tendo abdicado da sua anterior militância na Renamo para impulsionar a implantação da nova base política e a antiga CAD naquela parcela do país.
O mal-estar ficou ainda mais evidente com a ausência total de Raúl Novinte no recente Congresso e Convenção Nacional do ANAMOLA, que decorreu precisamente na província de Nampula. O fundador garante que não foi sequer convidado para o evento oficial que oficializou os órgãos directivos do partido.
Paradoxalmente, Venâncio Mondlane — que construiu o seu discurso público em torno da defesa da transparência, da renovação e da democracia interna contra as lideranças tradicionais — vê-se agora acusado por um dos seus aliados mais próximos de reproduzir exactamente os mesmos vícios políticos que ambos criticavam no passado.
Por outro lado, o novo presidente eleito da Aliança, Venâncio Mondlane, trouxe uma versão contrastante sobre o caso. Segundo declarações veiculadas pela imprensa local (como o Jornal Rigor de Nampula), a liderança assegura que Raúl Novinte abandonou o partido por “decisão própria”. A cúpula do ANAMOLA rejeita formalmente qualquer cenário de exclusão ou perseguição interna, alegando que o antigo dirigente manifestou o desejo de se afastar para se dedicar exclusivamente a um projecto estritamente pessoal.