Insuficiência de micronutrientes compromete crescimento saudável dos moçambicanos

A insuficiência de micronutrientes na alimentação continua a comprometer o crescimento saudável da população moçambicana, favorecendo o aparecimento de doenças, deficiências e outros problemas de saúde.

O alerta foi lançado pela Secretária Executiva do Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN), Judite Mussácula, durante a II Conferência Internacional de Nutrição e Agronegócio (CINA), realizada esta semana, em Nampula, no âmbito da VII Feira Económica Provincial.

A dirigente do SETSAN defende uma resposta urgente, integrada e baseada em evidências para inverter o actual cenário.

Segundo Judite Mussácula, os dados da Folha de Balanço Alimentar referentes ao período de 2019 a 2024 revelam que a população moçambicana continua sem acesso suficiente aos micronutrientes essenciais, apesar dos avanços registados na produção agrícola.

O estudo permitiu identificar os padrões de disponibilidade alimentar, as principais fontes de nutrientes e as lacunas existentes no consumo efectivo das famílias.

Para a responsável, estes indicadores reforçam a necessidade de encarar a segurança alimentar e nutricional como um direito fundamental, que garante o acesso permanente da população a alimentos saudáveis, em quantidade e qualidade adequadas.

“O contexto actual exige de nós uma acção integrada e baseada em dados estatísticos claros”, afirmou.

No que respeita à produção agrícola, explicou que Moçambique assegura cerca de 83 por cento das necessidades nacionais de milho, correspondentes a 2.449.192 toneladas, mas continua fortemente dependente da importação de arroz, cuja produção nacional cobre apenas 20 por cento da procura, equivalente a 220.383 toneladas. Isto significa que o país importa cerca de 80 por cento do arroz consumido.

Apesar da relativa auto-suficiência na produção de milho, os indicadores nutricionais continuam preocupantes, sobretudo nas províncias do Norte e Centro do país, onde a desnutrição crónica permanece elevada, situação agravada pelos sucessivos eventos climáticos extremos.

“A nível nacional, 37 por cento das crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição crónica, uma taxa muito superior aos 20 por cento considerados aceitáveis pela Organização Mundial da Saúde”, sublinhou.

Dados do Inquérito Demográfico e de Saúde (IDS) 2020/2023 indicam que Nampula lidera os índices de desnutrição crónica, com 47 por cento, seguindo-se Cabo Delgado (45 por cento), Zambézia (44), Manica (39), Niassa e Tete (36) e Sofala (30).

Na província de Nampula, a situação assume contornos particularmente alarmantes.

De acordo com Judite Mussácula, três em cada cinco crianças menores de cinco anos enfrentam problemas de desnutrição crónica, realidade que exige o envolvimento de todos os sectores da sociedade.

Neste contexto, defendeu que o agronegócio deve deixar de ser visto apenas como um instrumento de aumento da produção ou de geração de lucros, assumindo igualmente um papel decisivo na promoção da nutrição.

“Um agronegócio moderno e responsável deve ser sensível à nutrição. Isso significa investir na produção de culturas biofortificadas, diversificar a oferta de alimentos saudáveis nos mercados locais e reduzir as perdas pós-colheita, garantindo que os alimentos cheguem frescos, nutritivos e acessíveis às famílias”, destacou.

A dirigente concluiu sublinhando que existe uma relação de dependência directa entre nutrição e agronegócio.

“Uma população bem nutrida constitui uma força de trabalho agrícola saudável e produtiva. Por sua vez, o agronegócio fornece os alimentos necessários para combater a fome oculta e melhorar a qualidade de vida das comunidades”, afirmou.

A VII Feira Económica de Nampula, reuniu expositores, empresários, operadores turísticos, agentes do sector da restauração e artesãos, com destaque para a participação de mulheres e jovens, encerrando as suas actividades este sábado. (AIM)

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