Confrontos entre polícia e manifestantes anti-imigração agravam tensão em Ceuta – O País

A tensão em Ceuta, enclave espanhol no Norte de África, agravou-se na quinta-feira, com confrontos entre a Polícia e manifestantes contrários à presença de migrantes, um mês depois da chegada em massa de pessoas provenientes de Marrocos.

Os confrontos ocorreram numa praia onde centenas de migrantes permanecem instalados em condições precárias. Segundo imagens divulgadas pela televisão pública espanhola, um grupo de manifestantes entrou na zona onde os migrantes dormiam, tendo alguns dos seus pertences sido incendiados durante os distúrbios.

Horas antes, dezenas de pessoas tinham participado numa manifestação pacífica para impedir temporariamente a entrada de viaturas da Cruz Vermelha na praia, onde seriam distribuídos alimentos aos migrantes. Munidos de bandeiras espanholas, os manifestantes gritavam palavras de ordem como «Eles deveriam ir embora» e “Fora com a Cruz Vermelha”, antes de serem dispersados pela Polícia.

Na noite de quarta-feira, as autoridades já tinham recorrido a gás lacrimogéneo para evitar confrontos entre manifestantes e migrantes acampados na mesma zona.

A situação agravou-se ainda mais na madrugada de quinta-feira, quando um veículo militar que transportava quatro soldados foi atacado por cerca de 70 migrantes. De acordo com um porta-voz da Polícia, o grupo lançou pedras e outros objectos contra a viatura, obrigando os militares a abandonar o local e a pedir auxílio policial.

Doze migrantes, todos de nacionalidade marroquina, foram detidos. Um dos soldados sofreu ferimentos ligeiros depois de ser atingido por uma pedra. As autoridades ainda não esclareceram as razões que terão estado na origem do ataque.

Os habitantes de Ceuta, território com apenas 18 quilómetros quadrados, têm realizado manifestações regulares, alegando problemas de segurança e higiene associados à permanência de milhares de migrantes nas ruas.

“A tensão na cidade de Ceuta está muito alta”, afirmou à rádio SER Kissy Chandiramani, conselheira de Finanças da cidade autónoma. A responsável considerou que existe uma sensação de abandono por parte das autoridades centrais, mas apelou à calma, advertindo que o aumento da hostilidade não contribuirá para resolver a crise.

 

GOVERNO PROMETE REFORÇAR RESPOSTA

Mais de 70 mil migrantes chegaram a Ceuta no final de Julho, atravessando a fronteira com Marrocos a nado ou a pé. O fluxo migratório provocou dezenas de mortes e reacendeu o debate sobre a política migratória da União Europeia.

Embora a maioria tenha regressado a Marrocos poucas horas depois da chegada, milhares continuam em Ceuta, muitos deles a viver nas ruas e em condições precárias.

O Governo espanhol estima que permaneçam no território entre 3.500 e 7.000 migrantes, enquanto as autoridades locais, lideradas pela direita, apontam para pelo menos 10 mil pessoas.

O ministro da Justiça, Félix Bolaños, apelou à serenidade e garantiu, perante os deputados em Madrid, que as autoridades estão a trabalhar “sem descanso” para restabelecer a normalidade em Ceuta.

Nos últimos dias, o Governo espanhol anunciou medidas para aumentar a capacidade dos centros de acolhimento e acelerar os procedimentos destinados a determinar quais os migrantes que podem ser devolvidos a Marrocos.

O Ministério do Interior anunciou igualmente o envio de efectivos adicionais para apoiar a identificação dos migrantes. O Conselho de Ministros aprovou ainda um financiamento extraordinário de 25 milhões de euros para reforçar o apoio a menores não acompanhados, abrangidos por protecção legal especial.

Na terça-feira, o Governo criou também um «comando único» para coordenar a resposta à crise em Ceuta, sob liderança do ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres.

 

CRISE AGRAVA DIVISÃO POLÍTICA

A situação em Ceuta está igualmente a aprofundar as divisões políticas em Espanha, numa altura em que o país se prepara para eleições gerais previstas para o próximo ano.

Os partidos conservadores e de extrema-direita exigem o regresso de todos os migrantes a Marrocos. O Governo, contudo, defende que cada pessoa deve ser identificada individualmente para determinar se reúne condições para pedir asilo ou se pode ser deportada.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, tem sido alvo de críticas por parte das autoridades locais e dos moradores de Ceuta, que consideram que Madrid demorou a reagir à chegada em massa de migrantes.

Sánchez também foi criticado por ter mantido as suas férias de Verão enquanto a crise se agravava e por ter convocado o Conselho de Segurança Nacional apenas depois do seu regresso a Madrid.

O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, acusou o Governo de abandonar os habitantes de Ceuta.

“Os habitantes de Ceuta estão a suportar isto sozinhos há um mês”, escreveu Feijóo na rede social X, acrescentando que «nada foi feito para impedir a invasão» nem para travar a crise de ordem pública, que, segundo afirmou, «piora a cada dia».

 

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