A aproximação da XI Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, agendada para a cidade de Chimoio, na província de Manica, está a gerar intensos debates e preocupações no seio do partido no poder em Moçambique. Fontes internas expressam o receio de que o encontro estratégico se transforme numa mera “conferência de quadros-chefes”, limitando o espaço para debates abertos e francos.
De acordo com uma investigação avançada pelo jornal Dossiers & Factos, mais de metade dos cerca de três mil participantes previstos para o evento serão chefes por inerência das funções que exercem no partido e no Governo. Contas feitas pela publicação indicam que pelo menos 51,2% das vagas disponíveis serão ocupadas por “convidados automáticos” — uma lista que inclui secretários provinciais, administradores distritais, governadores, deputados e membros do Comité Central.
Esta “excessiva presença de chefes” é vista por vários militantes como uma ameaça directa à democracia interna. Em declarações ao Dossiers & Factos, fontes partidárias alertaram que este cenário poderá asfixiar a influência dos delegados eleitos pelas bases, condicionando a profundidade das discussões em torno de matérias consideradas sensíveis, como a actuação do Secretariado do Comité Central e o desempenho do Executivo.
Os quadros da Frelimo exigem uma avaliação franca e profunda sobre o cumprimento do Manifesto Eleitoral e a execução dos contratos-programa dos ministérios. Há uma percepção crescente de que os critérios de avaliação do Governo nunca foram transparentes, o que tem dificultado a medição de resultados reais por sector.
A par disso, a liderança de Daniel Chapo, atual presidente do partido, enfrenta pressões internas relacionadas com o alegado recrudescimento do chamado “nyonguismo” — uma corrente supostamente protagonizada por membros seniores de quem se espera uma postura de maior neutralidade e exemplo. A gestão da comunicação interna, dirigida por Pedro Guiliche, também está debaixo de fogo, sendo criticada por não conseguir projectar eficazmente a imagem da organização.
Outro ponto que divide as opiniões, segundo a mesma fonte, é a forma como o actual secretário-geral, Chakil Aboobacar, ascendeu ao cargo em fevereiro do ano passado. O facto de ter concorrido sozinho e sem uma lista tríplice de consenso proposta ao Comité Central gerou descontentamento nas bases, que consideram o procedimento contrário às tradições democráticas da organização.
Adicionalmente, surgem queixas invulgares sobre a alegada “violação dos direitos dos idosos” devido à permanência prolongada de figuras históricas em funções de relevo, impedindo-as de usufruir de um merecido período de descanso após longos anos de serviço político. A par disto, há um forte apelo para a limitação de mandatos na Assembleia da República e autarquias, de modo a combater o nepotismo e evitar que “famílias inteiras” dominem os cargos públicos e partidários no país.
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