OS CORPOS EM SUHURA – O País
“O poder colonial encontrou nos corpos nus das mulheres negras um instrumento axial para o exercício material e simbólico da apropriação e violência.”
Catarina Martins (2019)
Em Ninguém Matou Suhura, a escritora moçambicana Lília Momplé retrata a violência exercida sobre o corpo feminino, relacionando-a com mecanismos de poder, discriminação racial e desigualdades sociais. O conto que dá título à colectânea, composta por cinco narrativas, decorre na Ilha de Moçambique, em Novembro de 1970, e divide-se em três partes: “O dia do senhor administrador”, “O dia de Suhura” e “O fim do dia”.
Na primeira parte, a caracterização do senhor administrador revela as contradições que atravessam a sua relação com os corpos femininos. Apesar de ser casado, manifesta desagrado perante a aparência física da esposa, cuja descrição evidencia a flacidez do corpo, a palidez da pele e os sinais de envelhecimento:
“O colo e os braços muito brancos e flácidos sobressaem desagradavelmente da camisa de dormir de seda verde. Igualmente flácidas e brancas espreitam as pernas de tornozelos inchados e sulcadas de varizes. E a cor lívida do rosto absorve-lhe o contorno das feições que os olhos desbotados e cansados não conseguem animar.”
Em contrapartida, o próprio administrador é apresentado como um homem untuoso, cuja camisa insiste em subir-lhe pela cintura e cujo peso, de oitenta quilos, tem de ser suportado pelo motorista que o transporta de riquexó. O contraste entre as duas descrições evidencia a disparidade dos critérios com que avalia a aparência física de ambos. Enquanto a esposa é submetida a um olhar minucioso, que destaca aquilo que o marido considera desagradável no seu corpo, as características físicas dele são apresentadas sem que pareçam comprometer a posição que ocupa ou a autoridade de que dispõe.
Todavia, esta assimetria não se limita à aparência física. A posição social do administrador revela uma concepção hierárquica das relações humanas, na qual o poder lhe confere o privilégio de avaliar sem ser igualmente avaliado. Ainda assim, apesar do desagrado que manifesta pela aparência da esposa, não a abandona, visto que a relação entre ambos assenta também na cumplicidade nos crimes que cometeram para alcançar a posição social que ocupam. O vínculo que os une ultrapassa, portanto, a atracção física, embora não elimine o desprezo que ele manifesta pelo corpo da mulher.
Casado, o administrador mantém relações sexuais coercivas com raparigas negras que lhe são arranjadas pelo sipaio Abdulrazaque, descrito por Momplé como um homem também untuoso, cujos sorrisos não conseguem dissimular a maldade dos olhos. A participação de Abdulrazaque na exploração sexual de mulheres do seu próprio povo evidencia a complexidade das relações de poder no contexto colonial. Neste caso, a posição do sipaio contribui para a manutenção de uma estrutura que submete as mulheres negras à autoridade colonial e à vontade dos homens que dela beneficiam.
É neste contexto que a reflexão de Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, se torna pertinente para compreender a representação do corpo negro. Ao analisar a experiência vivida do negro, Fanon examina a forma como o olhar branco condiciona a percepção social do sujeito negro, reduzindo-o frequentemente a significados associados à sua raça. O autor descreve a “substituição do esquema corporal por um esquema epidérmico racial”, expressão que evidencia o modo como as representações raciais interferem na experiência que o indivíduo tem do próprio corpo e na forma como é percebido pelos outros.
Embora a reflexão de Fanon se desenvolva num contexto histórico e social distinto daquele que Momplé representa, o conceito permite aprofundar a análise do olhar do administrador. Quando avista Suhura, não a reconhece como uma pessoa com identidade, história e vontade próprias. Sequer as capulanas andrajosas o impedem de a desejar, mas observa-a a partir da categoria que lhe atribui: “macuazinha” de feições impressionantes.
“É apenas mais uma bela negrinha que lhe passa pelas mãos, sem dúvida muito menos importante para ele que qualquer dos seus animais de estimação. Mas, mesmo assim, é-lhe extremamente agradável saber que à tarde a terá à sua disposição, no discreto quartinho da D. Júlia Sá.”
O olhar do administrador torna-se ainda mais revelador quando comparado com aquele que dirige à esposa, visto que a juventude da