Pelo menos 180 jovens em situação de vulnerabilidade, entre deslocados de guerra e residentes da cidade de Pemba, beneficiaram este sábado (20) de apoios para o fortalecimento de pequenos negócios, no âmbito do Projecto de Prevenção ao Extremismo Violento, uma iniciativa da Associação Kuendeleya, em coordenação com a Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), implementada pela ActionAid e financiada pelo Fundo Global para Resiliência Comunitária (GCERF).
O evento teve lugar no bairro Cariacó, na cidade de Pemba, e marcou a entrega de fundos rotativos a seis grupos de jovens previamente capacitados em matérias de literacia financeira e empreendedorismo.
Antes da selecção dos beneficiários, cerca de 300 jovens participaram em formações sobre gestão financeira e criação de negócios. Deste universo, 180 foram seleccionados para integrar seis grupos de poupança e crédito rotativo. Entre os participantes encontram-se jovens deslocados provenientes dos distritos de Palma, Mocímboa da Praia, Muidumbe, Macomia e outras regiões afectadas pelo terrorismo, bem como jovens naturais de Pemba.
Para muitos beneficiários, a iniciativa representa uma oportunidade concreta de mudança de vida e afastamento de práticas de risco. “Agradecer a Kuendeleya que me faz aprofundar os conhecimentos até chegar aqui. É mais viável porque acaba tirando aquela mente ilícita. Eu me sinto muito satisfeito por fazer parte desta feira. Eu já estou capacitado para fazer o negócio”, afirmou o jovem beneficiário Razaque Florêncio.
Também beneficiária do projecto, Rabia Saide destacou os ganhos económicos e sociais alcançados pelos participantes. “Sim, estou feliz por participar nesta feira porque foi uma boa experiência. Vendi muita coisa”, disse.
Outra beneficiária, Maneira Amade, contou que os conhecimentos adquiridos já começam a produzir resultados. “Estou a comer caracata, comprei aqui na feira. Eu estava a vender xima, mas já acabou tudo. Acredito que alguma coisa vai mudar na minha vida, eu também faço parte de um grupo de poupança. Eu não esperava que num dia poderia receber um apoio desse e o que eu aprendi, vou pôr em prática.”
Por sua vez, Elsa Omar, residente no bairro Maringanha, explicou que o apoio recebido servirá para iniciar actividades geradoras de rendimento. “Viemos receber material, e depois daqui vamos poupar, começando por fazer negócio”, afirmou.
Falando durante a cerimónia, o presidente da Associação Kuendeleya, Abudo Gafuro, explicou que o projecto procura promover a reconciliação, a convivência pacífica e a inclusão económica dos jovens.
“Sobre a prevenção ao extremismo violento que são a reconciliação, imparcialidade, união de jovens em diversos extractos de religião e etnia, isto que não constitua barreira e que não seja o motivo para haver discursos de ódio para com um dos outros e que a oportunidade de fazer pequenos negócios seja uma realidade dentro da cidade de Pemba e fora dela”, afirmou.
Segundo Gafuro, cada grupo recebeu um fundo rotativo de 50 mil meticais, totalizando 300 mil meticais para os seis grupos beneficiários.
“Para este grupo será alocado um fundo para ajudar os jovens a terem crédito rotativo e aquilo que é poupança para cada grupo, são 50 mil por cada grupo, e vai ser entregue hoje e são seis grupos, o que significa que 50 mil vezes seis são 300 mil meticais para todos os grupos e para que eles possam se beneficiar destes fundos e mostrarem a capacidade de gestão e resiliência”, explicou.
Em representação da ADIN (Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte), Cláudio Sacita, destacou que a iniciativa constitui uma das estratégias de consolidação da paz e prevenção do extremismo violento em Cabo Delgado.
“Jovens, nós estamos num momento muito especial. Vocês estão a representar jovens do distrito de Pemba e jovens da província de Cabo Delgado. Muitos já ouviram o que vocês fizeram e nós somos testemunhas disso. No fundo esta é mais uma testemunha para vocês verem que o governo está comprometido com a paz.”
O representante acrescentou que o empreendedorismo juvenil constitui uma ferramenta importante para a estabilidade social. “Há várias formas que nós consolidamos a paz que é esta. Termos raparigas e jovens que estão a enveredar pelo empreendedorismo de geração de renda.”
Segundo a ADIN, as acções vão além dos grupos de poupança e incluem actividades culturais e desportivas voltadas para a promoção da harmonia social. “Não só são grupos de poupança, há outras actividades que se fazem, é o caso de cultura, desporto, tudo isso no âmbito da promoção da harmonia, coesão social, paz e segurança.”
Já a representante da Direcção Provincial da Juventude, Emprego e Desporto, Crisanto Ernesto, defendeu que o combate ao terrorismo exige uma abordagem multidimensional. “O terrorismo não se combate apenas pelas armas, por isso o governo criou várias frentes. Uma das frentes é esta: formar os jovens para se ocuparem de modo que haja espaço para serem inseridos nestes grupos que estão à margem das agendas do Governo.”
A iniciativa surge num contexto em que Cabo Delgado continua a enfrentar os efeitos sociais e económicos do conflito armado, sendo a inclusão económica dos jovens considerada uma das principais estratégias para reduzir factores de vulnerabilidade e fortalecer a resiliência comunitária perante o extremismo violento.
(Foto DR)