A FloMining, empresa pertencente a Florindo Nyusi — filho do antigo Presidente da República, Filipe Nyusi —, está no centro de uma forte controvérsia no distrito de Manica. Moradores e camponeses locais acusam a firma de invasão de terras agrícolas e atribuição de indemnizações consideradas “irrisórias” após a retoma das actividades mineiras na região.
A tensão social e ambiental voltou a subir de tom na localidade de Mharidza, posto administrativo de Machipanda, no distrito de Manica. A empresa FloMining, detida por Florindo Nyusi, filho do ex-Presidente da República Filipe Jacinto Nyusi, está a ser abertamente acusada pelas comunidades locais de promover a expropriação de terras agrícolas e de invadir propriedades privadas para a extracção de ouro.
De acordo com uma investigação publicada pelo jornal Canal de Moçambique, a FloMining figura entre as entidades do sector privado que exerceram forte pressão (lobby) sobre o Executivo para revogar a decisão de suspensão da actividade mineira em Manica — medida que havia sido tomada pelo Governo em Setembro do ano passado devido aos graves impactos ambientais e à destruição desenfreada de machambas.
Segundo relatos recolhidos pelo Canal de Moçambique junto dos afetados na comunidade de Mutomboumwe, a FloMining iniciou as operações sem que fossem concluídos os acordos prévios de auscultação comunitária nem as avaliações transparentes dos bens destruídos.
Para compensar as famílias camponesas cujas terras agrícolas e sistemas de irrigação foram devastados pelas escavadoras, a empresa fixou valores de indemnização entre 5.000 e 16.000 meticais por agregado familiar.
“Recebi 5.000 meticais, mas esse dinheiro não compensa o que perdi. A minha machamba ficou destruída e foi coberta por pedras e areia. Esse valor não chega para recuperar os prejuízos e já não tenho como sobreviver nestas condições”, desabafou a camponesa Ana Matumbo ao Canal de Moçambique.
Outro morador afectado, Edmo Ngauda, reforçou a denúncia sobre a falta de critérios e a opacidade no processo de compensação:
“Houve pessoas que não aceitaram os valores e pediram uma nova avaliação. Disseram que quem estava ali era apenas mandatário da empresa e não podia alterar os montantes”, explicou Ngauda, notando que a presença e intimidação militar no terreno tem sido utilizada para conter a revolta popular.
Nesta primeira fase, a compensação abrange 52 famílias, deixando contudo de fora os danos causados às habitações em risco e a outras infraestruturas de subsistência comunitária.
Em resposta à actuação da empresa, os moradores locais endereçaram uma exposição formal ao Administrador do Distrito de Manica, Paulo Quembo. Na missiva, os afetados acusam formalmente a FloMining de incumprimento dos compromissos assumidos perante a comunidade.
Ficara acordado que uma equipa multissectorial composta por técnicos dos sectores de Ambiente e Infra-estruturas realizaria uma vistoria técnica no terreno até 29 de Junho de 2026. No entanto, segundo as denúncias, nenhum técnico governamental se deslocou ao local, tendo a empresa avançado unilateralmente com a colocação de maquinaria pesada e retoma da exploração na área previamente interditada.
Os camponeses exigem a suspensão imediata das actividades da FloMining e a realização urgente de uma reunião de emergência que junte o Governo Distrital, a direcção da empresa e os representantes da comunidade local para solucionar o litígio.
A suspensão da exploração mineira em Manica, decretada pelo Conselho de Ministros a 30 de Setembro de 2025, durou escassos dois meses. Em Novembro do mesmo ano, o Executivo recuou na decisão e aprovou um Decreto que levantava a proibição.
Na altura, o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, alegou que o levantamento se aplicava a concessionários que cumpriam as exigências legais e que não utilizavam produtos químicos poluentes nas bacias hidrográficas.
Contudo, relatórios da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia da República, presidida pelo deputado Aires Aly, contradizem a narrativa de plena regularidade ambiental e social. A CPI, que trabalhou nos distritos de Guro, Macossa, Báruè, Vanduzi, Gondola, Sussundenga, Macate, Manica e na cidade de Chimoio, alertou expressamente para a devastação contínua e o uso de substâncias nocivas à saúde pública.
“A grande preocupação é a existência de produtos químicos usados na mineração, que são nocivos à saúde pública e ao ambiente. E constatamos que a situação é desafiante e difícil. Principalmente devido aos níveis de poluição das águas nos rios e na albufeira de Chicamba. E tudo isto, merece muita atenção, muito cuidado do nosso lado”, declarou Aires Aly, citado pela mesma fonte.
As comunidades de Manica aguardam agora uma intervenção urgente das autoridades competentes para travar aquilo que classificam como uma “invasão injusta” do seu património agrícola familiar.