A persistente falta de moeda estrangeira (divisas) está a sufocar a economia moçambicana, levando ao encerramento de mais de meio milhar de empresas e à perda de mais de 15 mil postos de trabalho, revela um estudo do Centro de Integridade Pública (CIP) divulgado este mês.
A investigação, que cobre o período de 1990 a 2024, mostra que o fenómeno não é novo, mas agravou‑se sobretudo a partir de 2024, com os bancos comerciais a reter divisas e o Banco de Moçambique a suspender a comparticipação no pagamento de combustíveis importados.
Segundo o estudo, o Produto Interno Bruto (PIB) real do país registou uma tendência decrescente de cerca de 3% ao ano, ao passo que a inflação cresceu, em média, 9% anualmente. A taxa de câmbio oficial também disparou, reflectindo uma depreciação contínua do metical. Os investigadores do CIP concluíram que uma desvalorização de 1% do metical reduz o PIB real em 0,65% e aumenta a dívida pública total em 0,13%. A escassez de divisas, por si só, não mostrou relação directa com o défice fiscal, mas quando combinada com a depreciação cambial, provoca uma queda significativa nas importações de bens e serviços.
O trabalho de campo realizado pelo CIP junto de empresas dos sectores de alimentação, saúde, construção e comércio electrónico revela que a capacidade de importação das empresas caiu, em média, 40%. Muitas recorrem a práticas informais e a accionistas no exterior para pagar as suas necessidades, enquanto dezenas de pequenos negócios nacionais simplesmente fecharam as portas. Casos mediáticos como o encerramento das empresas Kawena e Dimatel ilustram o drama. A Associação das Pequenas e Médias Empresas confirma que a falta de acesso a divisas é hoje a principal barreira à sobrevivência do tecido empresarial nacional.
Para travar a sangria, o CIP recomenda uma actuação coordenada entre as autoridades fiscais, monetárias e cambiais. Entre as medidas urgentes apontam‑se a estabilização da taxa de câmbio e a gestão mais transparente das reservas internacionais, a redução do endividamento em moeda estrangeira privilegiando a moeda nacional, a diversificação da economia e a expansão da capacidade exportadora, bem como a criação de sistemas de alerta precoce para riscos macro‑fiscais.
“A economia moçambicana é estruturalmente vulnerável à escassez de divisas e às flutuações da taxa de câmbio”, lê‑se nas conclusões do estudo. O CIP alerta que, sem reformas profundas, o país continuará a assistir à contracção da actividade económica, ao agravamento da pobreza e à perda de bem‑estar social.
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