Estudo denuncia “exclusão” de trabalhadoras do sexo durante situações de emergência climática

Um estudo desenvolvido pela Pathfinder Moçambique denuncia uma suposta “exclusão” das trabalhadoras do sexo durante os programas de resposta aos desastres naturais, sobretudo cheias e ciclones que ciclicamente têm afectado o País.

O documento, designado “Manual Orientador para Trabalhadores de Sexo em Contexto de Emergência Climática”, foi apresentado esta quinta-feira (18), em Maputo, durante um workshop promovido pela Pathfinder Moçambique. De acordo com a pesquisa, apesar das trabalhadoras do sexo estarem entre os grupos mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, “raramente são consideradas nas políticas e programas de resposta aos desastres”.

O manual apresentado resulta de uma avaliação realizada nas províncias de Manica, Sofala e Nampula e procura responder a algumas das necessidades identificadas no terreno.

Falando num encontro que juntou organizações da sociedade civil, representantes governamentais e parceiros internacionais para discutir os efeitos dos eventos climáticos extremos sobre grupos populacionais vulneráveis e identificar formas de tornar as respostas mais inclusivas, o director nacional da Pathfinder Moçambique, Joaquim Fernando, explicou que a relação entre mudanças climáticas e populações-chave, como as trabalhadoras do sexo, “ainda é uma área pouco estudada no País”.

“Estamos perante uma realidade em construção. Ainda há muito por compreender sobre a forma como as mudanças climáticas afectam estes grupos e quais são as respostas mais adequadas”, afirmou Joaquim Fernando, reconhecendo que persistem várias lacunas que exigem mais investigação e recolha de evidências.

O responsável explicou ainda que o documento representa apenas o início de um processo, visto que “a sua implementação permitirá recolher novas experiências e melhorar as intervenções futuras”.

“Entre os principais desafios enfrentados pelas trabalhadoras do sexo durante situações de emergência climática destacam-se a perda de rendimento, dificuldades de acesso à habitação segura, interrupção dos serviços de saúde e aumento da exposição à violência e à exploração”, conclui o documento.

Não obstante, além dos impactos provocados pelos desastres naturais, estas mulheres enfrentam barreiras adicionais relacionadas com o estigma social, discriminação e acesso limitado à proteção social, fatores que agravam ainda mais a sua capacidade de recuperação após eventos extremos.

Na ocasião, o representante da Embaixada do Reino dos Países Baixos em Moçambique, Nick Veldwijk, referiu que as mudanças climáticas afectam directamente a segurança, a saúde, os rendimentos e o acesso aos serviços básicos. “Os trabalhadores do sexo estão entre os grupos mais afectados, mas muitas vezes permanecem invisíveis nas políticas públicas”, lamenou Nick Veldwijk, defendendo ser essencial para garantir respostas climáticas justas e eficazes.

Moçambique continua entre os países mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas. De acordo com dados apresentados durante o workshop, o País figura entre os mais vulneráveis do mundo a desastres naturais.

Segundo a Pathfinder Moçambique, o manual apresentado foi desenvolvido com o apoio de parceiros internacionais e será implementado em coordenação com uma plataforma nacional de organizações que trabalham com trabalhadoras do sexo, com o objectivo de reforçar a inclusão social e a resiliência destas comunidades perante os impactos das mudanças climáticas.

A iniciativa integra o Projecto Hands Off, cujo balanço final está previsto para decorrer na Ponta do Ouro, onde serão avaliados os resultados alcançados ao longo de cinco anos de implementação.

 

(Foto DR)

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