O território moçambicano tem enfrentado uma pressão crescente das redes de criminalidade organizada, afirmando-se como um dos corredores mais críticos para o trânsito de substâncias ilícitas em larga escala a nível mundial.
A posição geográfica do país, dotada de uma vasta linha costeira no Oceano Índico e fronteiras terrestres permeáveis, facilita a actuação de redes internacionais que utilizam o território como entreposto estratégico para o escoamento de mercadorias proibidas com destino à Europa e à vizinha África do Sul.
De acordo com as revelações e análises detalhadas no programa Causa e Efeito da RTP, Moçambique integra rotas complexas de distribuição global de substâncias altamente destrutivas. A chamada rota sul da heroína, que tem origem no Afeganistão e transita pela Costa de Makran, utiliza pequenas embarcações rápidas para descarregar o produto na costa de Cabo Delgado e Nampula, seguindo depois por via rodoviária para o mercado sul-africano. Ao mesmo tempo, o tráfico de cocaína proveniente da América do Sul e a entrada de novas redes asiáticas dedicadas a sintéticos têm transformado o perfil criminal na região austral.
A dimensão deste desafio ficou recentemente ilustrada com intervenções de grande impacto por parte das autoridades nacionais. O Serviço Nacional de Investigação Criminal realizou uma apreensão histórica nos armazéns do Aeroporto Internacional de Maputo, interceptando 3,7 toneladas de uma mistura perigosa que continha fentanil e difenidramina falsamente declarada como multivitaminas. Esta operação somou-se às apreensões de cerca de 4 toneladas de drogas registadas na costa moçambicana e à apreensão de 1,5 tonelada de cocaína camuflada em anos transactos, sublinhando que o país deixou de ser apenas um ponto secundário de trânsito para se tornar um eixo central na logística do narcotráfico global.