ONU avisa que, “sem cortar emissões, o mundo caminha para um colapso sem retorno”

O secretário-geral da ONU apelou esta terça-feira (23) à transição urgente para energias limpas e exigiu que as empresas de inteligência artificial divulguem o impacto ambiental dos seus centros de dados.

Com uma vaga de calor a castigar a Europa, António Guterres subiu ao palco da London Climate Action Week para lançar um plano de sete pontos destinado a acelerar a transição energética global e travar o que descreveu como duas crises com uma origem comum.

“A crise climática e a crise energética podem parecer separadas, mas partilham a mesma origem destrutiva: os combustíveis fósseis. E exigem a mesma resposta: uma transição rápida e justa para a energia limpa”, afirmou o secretário-geral da ONU, citado pelo Jornal Negócios.

O contexto é de urgência crescente, com os cientistas a alertar que as temperaturas médias anuais deverão ultrapassar o limiar de 1,5 graus Celsius acordado em Paris há mais de uma década. O conflito no Médio Oriente agravou a situação, desencadeando aquilo que Guterres classificou como “a mãe de todos os choques energéticos”, comparável às perturbações petrolíferas dos anos 1970.

Para os países em desenvolvimento, o impacto é ainda mais brutal: “É um choque de dívida, um choque alimentar, um choque de desenvolvimento”.

Ainda assim, o secretário-geral da ONU fez questão de sublinhar as boas notícias, em particular no esforço de transição energética registado nos últimos anos. Desde 2010, o custo da energia solar caiu quase 90%, o da energia eólica terrestre mais de 70% e o do armazenamento em baterias 95%. O investimento em energia limpa atrai hoje quase o dobro do que os combustíveis fósseis. “Não há embargos sobre a luz solar nem bloqueios ao vento”, declarou António Guterres.

O plano apresentado em Londres abrange desde o pico imediato das emissões, que devem atingir o zero líquido em 2050, até a exigência de responsabilidade ambiental à indústria da inteligência artificial. Neste ponto, Guterres foi particularmente incisivo e apontou que os centros de dados já consomem mais electricidade do que a maioria dos países.

Até 2030, acrescentou, poderão utilizar água suficiente para satisfazer as necessidades básicas de todos os 1,3 mil milhões de habitantes da África Subsaariana durante um ano inteiro. “É tempo de fazer as contas”, disse, apelando a que cada grande empresa da área divulgue publicamente a sua pegada de carbono, de água e de solo, e se comprometa a alimentar todos os centros de dados com energia renovável até 2030.

Outro ponto central foi o do financiamento climático, em particular nos países em desenvolvimento, que enfrentam custos de financiamento duas a três vezes superiores aos das economias mais ricas, o que os exclui da revolução das renováveis. África tem 60% dos melhores recursos solares do mundo, mas recebe apenas 2% do investimento global em energia limpa.

Os 300 mil milhões de dólares prometidos aos países em desenvolvimento têm de ser entregues, exigiu António Guterres, com passos concretos para mobilizar 1,3 biliões por ano até 2035.

A defesa da ciência foi o sétimo e último ponto do plano, e encontrou eco imediato no seio da comunidade científica. Bill Hare, CEO e cientista sénior da Climate Analytics, considerou o apelo de Guterres fundamental num momento em que a pressão sobre a investigação climática atinge níveis sem precedentes.

“O secretário-geral das Nações Unidas tem toda a razão em defender a ciência e o respeito pela integridade científica, porque as tentativas de a minar estão a atingir uma intensidade sem precedentes”, afirmou o cientista, denunciando que nas recentes negociações climáticas em Bona, na Alemanha, alguns governos dependentes de combustíveis fósseis tentaram bloquear o trabalho do Painel Inter-governamental sobre Alterações Climáticas e eliminar referências ao limite de 1,5 graus Celsius. “

É uma definição muito estranha de interesse próprio dizer ‘não quero ver o perigo que está mesmo à minha frente’, mas é onde estes governos estão agora”, concluiu.

 

(Foto DR)

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