Quando a economia aprende a medir-se a si própria: O ICEM e o rating empresarial financeiro como o novo “radar” da competitividade de Moçambique

“Entre produtividade, crédito, confiança e investimento, a FUNDEC inaugura uma nova era de inteligência económica para o sector privado moçambicano”.

Durante décadas, Moçambique caminhou economicamente como um navegador em mar revolto sem instrumentos próprios de orientação estratégica. Falava-se de crescimento, inflação, crédito, produtividade e investimento com base em percepções fragmentadas, relatórios externos e indicadores internacionais que, em algumas vezes, não captavam a verdadeira anatomia da economia empresarial moçambicana. O país crescia, mas nem sempre conseguia medir, com precisão científica, a qualidade desse crescimento, a robustez do tecido empresarial ou o real nível de competitividade dos seus sectores produtivos.

Hoje, porém, começa a emergir uma nova era silenciosa, mas profundamente transformadora: Moçambique já dispõe de instrumentos próprios de medição da sua competitividade empresarial e financeira. O Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique (ICEM 2024-2025) e o Rating Empresarial Financeiro 2025, desenvolvidos pela FUNDEC, representam mais do que simples métricas estatísticas. Representam, na verdade, um salto institucional na inteligência económica nacional.

Num mundo em que as economias modernas são governadas por dados, previsibilidade e análise quantitativa, possuir instrumentos nacionais de medição é equivalente a um país finalmente acender os faróis numa estrada onde antes conduzia apenas pela intuição.

I. A Competitividade Não é um Discurso: É uma Ciência Económica

Existe uma tendência perigosa em muitas economias emergentes: confundir crescimento económico com competitividade estrutural. Um país pode crescer impulsionado por commodities, megaprojectos ou ciclos externos favoráveis, mas continuar estruturalmente frágil, improdutivo e financeiramente vulnerável.

É exactamente aqui onde o ICEM surge como ferramenta estratégica.

Os dados mostram que o Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique passou de 26.26 pontos no primeiro semestre de 2024 para 30.01 no segundo semestre do mesmo ano, representando uma evolução de 14.62%. Este crescimento revelou um momento de recuperação empresarial, maior dinamismo operacional e alguma melhoria na capacidade de adaptação das empresas nacionais.

Contudo, em 2025, observa-se uma inversão parcial dessa trajectória: o índice caiu de 28.12 para 26.43 pontos no segundo semestre, uma contracção de 6.01%.

Este comportamento não deve ser interpretado como colapso. Pelo contrário. Economicamente, trata-se de um sinal importante de desaceleração competitiva associada ao aumento dos custos operacionais, pressão cambial, encarecimento logístico, redução da intermediação financeira e perda gradual de capacidade de investimento produtivo.

A grande virtude do ICEM não está apenas nos números. Está na sua capacidade de transformar sintomas dispersos em leitura estratégica organizada. É como um electrocardiograma da economia empresarial. Sem este tipo de instrumento, o país continuaria a tomar decisões económicas quase às cegas.

 II. A Produtividade: O Coração Invisível da Economia

Uma das leituras mais impressionantes dos dados da FUNDEC encontra-se nos indicadores de produtividade por trabalhador. Na agricultura, por exemplo, a produtividade caiu drasticamente do primeiro para o segundo semestre tanto em 2024 quanto em 2025, com reduções superiores a 44%. Isto significa que o sector mais empregador do país continua excessivamente vulnerável à sazonalidade, baixa mecanização, fragilidade logística e reduzida incorporação tecnológica.

A agricultura moçambicana continua a trabalhar muito, mas ainda produz pouco valor agregado por trabalhador. E isto tem implicações profundas. Quando a produtividade agrícola permanece baixa, toda a economia sofre. Sofre o consumo, sofre o rendimento familiar, sofre a arrecadação  de receita fiscal, sofre o sistema financeiro e sofre até a estabilidade cambial, porque um país com baixa produtividade depende mais de importações.

Já na indústria transformadora, embora exista uma ligeira recuperação em 2025 no segundo semestre, a produtividade continua estruturalmente baixa. Isto revela que Moçambique ainda exporta demasiada matéria-prima e industrializa muito pouco.

Uma economia que não transforma localmente a sua produção é semelhante a um país que vende troncos de madeira e depois importa móveis caros feitos com a mesma madeira. Perde emprego, Perde valor, Perde competitividade.

  III. CAPEX: O Termómetro do Coragem Empresarial

Outro aspecto extremamente relevante é o comportamento do CAPEX, o investimento em activos produtivos. Os números revelam um padrão preocupante: apesar do aumento nominal anual de 15.85% em vários sectores, há quedas acentuadas entre os primeiros e segundos semestres, superiores a 36%. Isto significa que as empresas continuam a investir, mas fazem-no de forma defensiva, cautelosa e descontínua.

Em linguagem económica simples, o empresariado ainda não sente estabilidade suficiente para assumir ciclos longos de investimento. O investimento privado é extremamente sensível à previsibilidade económica. Nenhuma empresa investe agressivamente onde existe elevada incerteza cambial, custos financeiros elevados, burocracia excessiva ou fragilidade logística.

O ICEM, neste sentido, ajuda o país a identificar exactamente onde a confiança empresarial começa a deteriorar-se antes da crise aparecer oficialmente nos indicadores macroeconómicos tradicionais, ou seja, abandonamos o paradigma reactivo e emigramos para uma abordagem proactiva.

 IV. O Crédito Como Espelho da Confiança

Talvez uma das dimensões mais sofisticadas deste estudo esteja nos indicadores de profundidade de crédito, qualidade de crédito e intermediação financeira.

Os dados mostram que sectores como indústria transformadora, comércio, transporte e logística continuam altamente dependentes do crédito para sustentar operações. Contudo, a intermediação financeira apresenta sinais de enfraquecimento em quase todos os sectores em 2025.

Isto é extremamente relevante, quando o crédito desacelera, a economia perde velocidade silenciosamente. Primeiro reduz-se o financiamento operacional. Depois cai o investimento. Em seguida desacelera-se a produção. Mais tarde aparecem os despedimentos. Finalmente surge a desaceleração do consumo, ou seja, o crédito funciona como o sistema circulatório da economia. Sem circulação financeira eficiente, o tecido empresarial perde oxigenação.

O próprio Rating Empresarial Financeiro de 2025 reflecte exactamente este fenómeno. O rating caiu de 46.64 pontos no primeiro trimestre para 39.57 no terceiro trimestre, antes de apresentar ligeira recuperação para 39.8 no quarto trimestre.

Esta deterioração não representa necessariamente colapso empresarial. Representa aumento do risco financeiro agregado, maior pressão sobre liquidez empresarial e deterioração parcial da confiança económica.

   V. Exportar Mais Não Significa Necessariamente Ganhar Mais

Um dos dados mais interessantes está no crescimento da intensidade de exportação em vários sectores. A agricultura, por exemplo, apresentou crescimento extremamente elevado na intensidade exportadora entre 2024 e 2025. As indústrias extractivas também continuam fortemente orientadas para exportação. Mas aqui surge a pergunta crítica:

Quanto valor agregado fica efectivamente em Moçambique?

Exportar recursos sem transformação industrial é como vender diamantes em bruto e depois importar jóias raras e caras.

O verdadeiro desenvolvimento económico não acontece apenas quando se exporta mais. Acontece quando se exporta inteligência incorporada, transformação industrial, tecnologia e produtividade nacional. É precisamente aqui onde o ICEM pode ajudar o país a redefinir prioridades estratégicas.

VI. A Economia Precisa de Métricas Como o Corpo Precisa de Diagnostico Médicos

Nenhuma empresa séria opera sem auditoria, sem contabilidade ou sem indicadores de desempenho. O mesmo aplica-se às economias modernas. O grande mérito da FUNDEC é justamente este: criar instrumentos nacionais capazes de medir a temperatura real da competitividade empresarial moçambicana. Isto muda profundamente o debate económico.

Agora torna-se possível identificar sectores mais vulneráveis, medir eficiência de capital, compreender, padrões de produtividade, antecipar deteriorações financeiras e orientar políticas públicas com base em evidência quantitativa.

Na prática, Moçambique começa finalmente a construir soberania estatística empresarial. E isto possui enorme valor estratégico. Países desenvolvidos não cresceram apenas porque tinham tecnologia e outros recursos. Cresceram porque aprenderam a medir, interpretar e antecipar os movimentos da sua economia.

 VII. Do Diagnóstico à Transformação Estrutural

Os indicadores mostram claramente que Moçambique possui três grandes desafios estruturais: baixa produtividade, fragilidade da intermediação financeira e insuficiente transformação industrial.

Mas os mesmos dados também mostram oportunidades importantes.

O transporte e logística continuam com forte crescimento relativo. O comércio e serviços revelam, capacidade de recuperação. A indústria transformadora começa lentamente a melhorar produtividade no segundo semestre de 2025. A agricultura demonstra potencial exportador relevante.

Isto significa que o país possui base económica para acelerar uma nova etapa de desenvolvimento. O próximo passo não é apenas medir, é transformar os dados em política económica inteligente.

Moçambique precisa agora de ligar competitividade empresarial a incentivos fiscais inteligentes, industrialização, digitalização, crédito produtivo, logística integrada e fortalecimento das cadeias de valor nacionais.

   VIII. Conclusão: O País Que Começa a Conhecer-se Economicamente

Durante muito tempo, Moçambique foi analisado por indicadores produzidos fora das suas fronteiras. Hoje, o país começa finalmente a construir os seus próprios instrumentos de leitura económica.

E isso representa um marco histórico silencioso.

O ICEM e o Rating Empresarial Financeiro não são apenas tabelas estatísticas. São ferramentas de inteligência económica nacional. São bússolas modernas para orientar investimento, políticas públicas e decisões empresariais.

Num mundo cada vez mais competitivo, sobreviverão as economias que melhor compreendem os seus próprios números. Porque no fim, as economias não fracassam apenas por falta de recursos. Fracassam, muitas vezes, por falta de capacidade de medir, interpretar e agir antes da crise chegar.

 

Por: Economista-Chefe Clésio Foia

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