Desigualdades sociais provocam fragmentação no País – O País
O filósofo Severino Ngoenha diz que quando o Governo não faz o seu papel de proteger os cidadãos e prover recursos a todos, sem descriminação, abre espaço para a fragmentação da sociedade. Ngoenha falava durante o debate sobre cidadania e instituições.
O Professor Catedrático, Severino Ngoenha reuniu académicos, estudantes e sociedade civil para um debate intitulado “Pensar Moçambique”. Com recurso a metáforas, o filósofo destacou o papel do Governo na garantia da coesão social.
Ngoenha falou de um guarda-chuva, que é o Estado, que tem a missão de proteger os cidadãos de fenómenos como a chuva, o sol, mas que em caso de vendaval, a mão que o segura deve ser firme o suficiente para não abanar e assim prejudicar (deixar molhar ou queimar com o sol) os que têm o dever de proteger.
“Tem que fazer com que todos sejam cobertos na mesma medida. Quando ela permite que a cobertura seja diferente, que uns se molhem, outros fiquem no seco, ela abre espaço para a fragmentação nacional de um país. Por isso, a primeira coisa que nós queremos é um Estado forte. Não é um Estado que corre e oprime os pobres. Não é um Estado que corre e oprime os fracos. Não é um Estado que corre e oprime aqueles que não têm nada, aqueles que estão na periferia. Ao contrário, é um Estado que protege os mais fracos. Diz ao gordo, ei, tu, gordo, fica no teu lugar para deixar espaço a outros. Ei, tu, gordo, estás a ocupar espaço a mais. Ei, tu estás a empurrar a guarda-chuva para a frente, estás a empurrar para trás, para esquerda ou para a direita. Ei, tem lá um buraco, temos que fechar aquele buraco para que ninguém se molhe. A primeira função de um Estado são aqueles dois braços que têm que agarrar a guarda-chuva e que têm que ser suficientemente fortes”.
Ngoenha, que é Reitor da Universidade Técnica de Moçambique, diz que o Estado deve ser o promotor da justiça.
“ Esses braços têm que ser fortes e têm que ser justos. Se eles não são ou fortes, ou justos, ou pior ainda, se ao mesmo tempo não são nem fortes nem justos, o desequilíbrio na guarda-chuva vai acontecer e o que vai acontecer é que as pessoas começam a lutar ali embaixo porque cada um quer ter mais espaço, ou ainda pior do que isso, alguns vão pensar ou ser tentados que a melhor solução é sair desta guarda-chuva para procurar uma outra guarda-chuva. Eu fujo para a África do Sul, eu vou para Portugal, eu vou para a Alemanha porque a guarda-chuva do meu país não me consegue cobrir, porque a guarda-chuva do meu país não me consegue meter ao seco, deixa-me sempre molhado.
Não me dá escola, não me dá hospital, não me dá trabalho, não me dá perspectiva, não me permite criar esperança. Mas volto a dizer, a responsabilidade que eles têm é moral, é que eles mesmos têm que ser exemplo de uma vontade de criar para o Estado, para o país, para os cidadãos, uma sociedade equilibrada para que todos sejam protegidos”.
Embora o Estado seja composto por todos, o docente chama a responsabilidade aos membros do Governo.
“O pior que acontece numa sociedade é quando aqueles que têm que agarrar a guarda-chuva para que todos possam estar cobertos por ela, se pertencem a grupos de esquerda, fazem assim. A guarda-chuva começa a proteger uma parte da sociedade e deixa a outra em aberto. O pior que acontece é quando eles levam para frente, porque diz que os meus estão em frente, os que estão atrás não me pertencem. Porque eles mesmos são factores de fenómenos de turbulência, que aonde levar aqueles que não estão cobertos a dizer, como eu não estou coberto por esta guarda-chuva, vou buscar uma árvore, vou procurar um terraço, vou procurar outras guarda-chuvas embaixo de quais posso me sentir protegido, porque aqui, nesta guarda-chuva, não estou protegido”, concluiu.
O encontro faz parte de um grupo de quatro sessões de debate sobre o desenvolvimento do país, promovido pela Universidade Técnica de Moçambique.