O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) reconhece que a assistência humanitária na província de Cabo Delgado continua a ser condicionada pela conjugação de choques climáticos e pelo impacto do terrorismo, afectando as mesmas comunidades.
Falando este sábado (25), num debate radiofónico da Rádio Moçambique, o delegado do INGD em Cabo Delgado, Marques Naba, explicou que a resposta humanitária deve ser ajustada a um cenário complexo e simultâneo.
“Na província de Cabo Delgado, olhamos para dois aspectos: a mesma comunidade é vítima da época chuvosa e do conflito. Este é o grande desafio que todos os actores humanitários gerem”, afirmou.
Segundo o responsável, na presente época chuvosa e ciclónica foram registadas 4570 casas afectadas, das quais 1316 totalmente destruídas, além de danos em infra-estruturas sociais. “Estamos a falar de 3629 famílias, correspondentes a 9.671 pessoas afectadas apenas pela época chuvosa”, detalhou.
Paralelamente, o conflito armado continua a gerar deslocamentos populacionais significativos. Dados da última ronda de monitoria indicam que cerca de 434 mil pessoas permanecem em centros de reassentamento.
“Temos 128 615 famílias, correspondentes a 434 410 pessoas em situação de deslocamento”, disse Naba, acrescentando que mais de 678 mil pessoas já regressaram às zonas de origem.
O INGD sublinhou que a assistência abrange não só os deslocados, mas também famílias acolhedoras e populações retornadas. “Chegámos a um consenso de que devemos assistir deslocados, famílias acolhedoras e retornados, para evitar tensões nas comunidades”, explicou.
Desde o início da actual campanha, o Governo e parceiros assistiram mais de 64 mil famílias com bens alimentares e não alimentares. Face à redução do financiamento internacional, a estratégia evolui para soluções duradouras, com enfoque nos meios de subsistência.
“Já não estamos a investir em tendas, mas em materiais de construção e na criação de aldeias com serviços básicos como escolas, mercados e unidades sanitárias”, referiu.
O dirigente reiterou que o Governo mantém a liderança da coordenação humanitária. “Quem lidera as operações humanitárias em Moçambique é o Governo. Os parceiros vêm complementar os planos definidos”, sublinhou.
Já o secretário da Cruz Vermelha de Moçambique, Abílio Campos, destacou a componente de protecção na resposta humanitária. “Estamos a trabalhar na reunificação de crianças e no apoio psicossocial, porque sem estabilidade emocional não há vida normal”, afirmou.
Por seu turno, o representante do Conselho Cristão de Moçambique (CCM), Emerson Ubisse, sublinhou a priorização territorial com base na severidade das necessidades. “Há distritos com níveis elevados de severidade onde a resposta deve ser imediata”, disse, acrescentando que “a nossa intervenção depende dos recursos disponíveis e das prioridades definidas pelo Governo”.
Por último, o representante do Fórum das Associações da Província de Cabo Delgado (FOCADE), Carlos Manjate, alertou para a necessidade de maior inclusão das organizações nacionais.
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