O braço de ferro entre o Governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, e as empresas distribuidoras de combustíveis ganhou novos contornos dramáticos. Enquanto o banco central culpa a “falência” e falta de meticais das gasolineiras pelo desabastecimento, o sector privado quebra o silêncio ao jornal Canal de Moçambique e aponta o dedo à falta de divisas e ao incumprimento das leis pelo Executivo. Dois novos aumentos drásticos já estão calendarizados para Junho e Julho.
O governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, reagiu publicamente e pela primeira vez à severa crise de combustíveis que tem estado a criar um autêntico caos na economia moçambicana há cerca de três meses. Contudo, a sua argumentação caiu como uma autêntica “bomba” no seio do empresariado nacional.
Mesmo após a subida de preços registada na primeira quinzena de Maio — que fez disparar a gasolina de 83,30 meticais para 116,25 meticais e o gasóleo (diesel) de 78,97 meticais para 93,86 meticais —, o Executivo não conseguiu travar as restrições e as longas filas que paralisam as bombas de abastecimento.
Na sua última intervenção, Zandamela escusou-se a focar o problema na escassez de moeda estrangeira e direccionou toda a culpa para a gestão das empresas. “As gasolineiras estão falidas e nem sequer meticais têm”, disparou o Governador, assegurando que o sistema bancário comercial tem liquidez de sobra e está a priorizar as facturas e cartas de crédito de combustíveis, mas exige garantias que as operadoras, por insolvência, não conseguem apresentar. Segundo o líder do banco emissor, existem limites de garantias bancárias disponíveis bem abaixo do tecto máximo fixado pelas instituições, mas que os bancos não as emitem por uma decisão de gestão de risco face a empresas “quebradas”.
Entretanto, o sector privado decidiu quebrar o silêncio e rebater frontalmente as acusações. Em declarações exclusivas ao jornal Canal de Moçambique, um dirigente de uma gasolineira com capitais estrangeiros acusou Rogério Zandamela de faltar à verdade e de tentar sacudir a água do capote para esconder uma falha sistémica do próprio Estado.
O administrador ripostou que Zandamela não está a falar a verdade. O problema de divisas nada tem a ver com as gasolineiras e continua por resolver. De acordo com a fonte, o custo de importação sofreu um agravamento brutal, onde as facturas globais saltaram de 745 dólares por tonelada para 1.786 dólares entre Março e Maio — um aumento asfixiante de 140% em apenas 60 dias.
Este choque internacional destruiu a capacidade de cobertura das garantias bancárias das empresas. “As garantias que cobriam um mês agora cobrem apenas 12 dias. As gasolineiras ficam bloqueadas com as garantias que têm porque no mercado nacional simplesmente não há divisas (dólares)”, explicou.
As gasolineiras queixam-se ainda de que o Governo não tem cumprido o Decreto Regulamentar 89/2019 (de 10 de Novembro), que obriga à revisão mensal do Custo Base segundo o mercado internacional. Ao fixar preços artificiais e reter os subsídios que deveriam amortecer as perdas das distribuidoras perante o consumidor final, o Executivo estrangulou o fluxo de caixa do sector.
O cenário futuro para o bolso dos moçambicanos é alarmante. Um funcionário superior do Ministério dos Recursos Minerais e Energia confirmou ao jornal Canal de Moçambique que os preços serão obrigatoriamente revistos nos dias 18 de Junho e 18 de Julho.
A subida de Junho promete ser a mais “drástica” de sempre. Como na última revisão de Maio o Governo travou a proposta inicial das gasolineiras — que exigiam um aumento agressivo de 40,00 meticais de uma só vez —, a estratégia agora passa por diluir esse valor em subidas graduais consecutivas nos próximos dois meses para estancar as perdas acumuladas das operadoras e evitar o colapso total do fornecimento de combustíveis no país.
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