Filho de Jorge Rebelo abandona a Frelimoː “Partido segue cultura ditatorial, de manter o poder a todo custo”

Mulweli Rebelo, filho do histórico dirigente, Jorge Rebelo, decidiu abandonar o partido Frelimo, por desilusão profunda em relação ao rumo actual da organização que governa Moçambique desde a independência.

Numa carta dirigida aos camaradas, Rebelo admite não se rever mais na forma como o partido trabalha e é gerido actualmente.

Em 2023, já havia mostrado a sua insatisfação ao afirmar que “a Frelimo tornou-se num partido ignorante e arrogante”, mas desta vez foi um pouco mais longe.

“Caros irmãos e irmãs, camaradas, depois de muita reflexão, decidi afastar-me das atividades políticas e partidárias da Frelimo. A minha motivação em militar sempre esteve ligada ao desejo de dar continuidade ao trabalho dos nossos pais, que acreditaram num país justo e progressista — mas, infelizmente, até eles, hoje, estão desiludidos com o rumo que Moçambique tomou”, começa por explicar em sua carta.

No documento, o militante, aliás o ex militante, explica que a forma como as últimas eleições foram conduzidas e geridas internamente o levou a concluir que “o partido perdeu o sentido de missão”.

“Percebi o quanto não me revejo na forma como o partido trabalha e é gerido: estruturas antiquadas, pouca abertura para a modernização e uma cultura ditatorial, de manter o poder a todo custo. Continuamos a ver atropelos de gestão, mau uso de fundos e ausência de responsabilização, enquanto o país anda para trás”, escreve.

Criticou a forma como são conduzidas as reuniões do partido nos últimos anos, que na sua percepção muitas vezes, começam com atrasos e são preenchidas de cantigas e danças que, embora sejam momentos bonitos de camaradagem, pouco contribuem para a produção de conteúdo útil que ajude a resolver os problemas reais do povo.

Diz sair de cabeça erguida, com respeito e gratidão por todos os camaradas, mas “com a convicção de que o futuro de Moçambique depende de novas ideias, ética e coragem para mudar”.

“Continuarei a dedicar as minhas energias em projectos de desenvolvimento, com o compromisso de sempre: contribuir para o progresso do nosso Moçambique”, escreve no documento.

Filho de Jorge Rebelo, uma das vozes morais mais respeitadas da geração fundadora da Frelimo, Mulweli carrega um nome que simboliza os ideais de liberdade e justiça social. Curiosamente, as suas palavras coincidem com o pensamento crítico do próprio pai, que há mais de uma década alertava que o partido se perdia em discussões de gerações “enquanto os problemas reais do povo permaneciam por resolver”.

Mulweli Rebelo, filho de Jorge Rebelo, uma das vozes mais critica da actual Frelimo, curiosamente o seu pensamento não foge muito com a do pai que há décadas tem sido um crítico ferrenho do partido.

Jorge Rebelo foi secretário de informação da Frelimo e um dos poetas da luta de libertação, autor dos versos que inspiraram a resistência contra o colonialismo. Hoje, vê o filho protagonizar uma nova forma de resistência — não contra o colonialismo, mas contra o que chama de degeneração interna do partido que outrora uniu o país.

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