O investigador do Observatório do Meio Rural (OMR) adverte que o atraso no pagamento de subsídios pode levar a Força Local a virar-se contra o próprio Estado. Em relação aos Naparamas, Feijó sugere uma abordagem de diálogo e não pelo uso da força.
A sustentabilidade e o controlo dos grupos paramilitares que combatem o terrorismo na província de Cabo Delgado estão a levantar sérias preocupações no seio da comunidade académica. Em análise à situação de segurança no Norte do país, o investigador João Feijó alertou para os riscos que a proliferação destas forças comunitárias representa para a estabilidade a longo prazo, classificando a situação como um “assunto muito delicado”.
Segundo o especialista entrevistado pela STV, a chamada Força Local — constituída essencialmente por veteranos e indivíduos seleccionados pela sua lealdade política ao partido Frelimo — desempenha um papel crucial, mas a sua dependência financeira do Orçamento do Estado constitui uma linha muito ténue.
“Estão fortemente dependentes do pagamento de subsídios. Num contexto de ausência ou de atraso de pagamento, há o risco de estes indivíduos passarem eles próprios a fazer cobranças na rua, nas estradas através de bloqueios, ou de se virarem contra o próprio Estado”, explicou João Feijó.
Se a Força Local responde formalmente à estrutura estatal, o cenário muda de figura quando se fala dos Naparamas. Este grupo de matriz tradicional e mística move-se por motivações diferentes, assentes na autodefesa e na forte ligação à terra, e não necessariamente por fidelidade ao Governo ou a partidos políticos.
Para Feijó, os Naparamas são “ainda mais imprevisíveis” porque surgem para proteger as populações locais que muitas vezes não se sentem integradas na visão tradicional do Estado-nação. O investigador sublinha que, nos últimos dois anos, a actuação deste grupo resultou na criação de autênticas “mini-repúblicas” em vários distritos das regiões Centro e Norte de Moçambique, condicionando os investimentos e a autoridade estatal.
Perante este braço de ferro invisível, o analista deixa um aviso claro às autoridades: o combate aos Naparamas não deve ser feito pela via das armas, sob o risco de cavar um fosso ainda maior entre o Estado e as comunidades locais. A solução, sugere, passa por compreender as assimetrias regionais e apostar na inclusão socioeconómica das populações.
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