O silêncio do GCCC perante os escândalos da LAM e a polémica compra de aviões no mercado negro

Semanas após a divulgação de uma auditoria interna devastadora sobre a gestão das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), que revelou irregularidades graves e elevados prejuízos financeiros ao Estado, cresce a pressão sobre as autoridades judiciais moçambicanas.

Apesar de ter iniciado diligências no terreno com a recolha do relatório e de documentação diversa, o Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC) remeteu-se a um silêncio enigmático, enquanto surgem novos indícios de gestão danosa e sinais de retaliação contra quem fiscalizou a empresa.

Segundo dados divulgados pelo Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), o relatório de auditoria interna pôs a descoberto uma série de práticas de gestão altamente suspeitas e um sistema de controlo interno praticamente nulo na LAM. Entre os achados mais graves estão a aquisição de duas aeronaves Embraer E-190 obsoletas em Dezembro de 2025, no valor de 25 milhões de dólares americanos através do ”mercado negro”, e a celebração opaca de contratos de aluguer de aviões em regime ACMI (Aircraft, Crew, Maintenance, and Insurance), o modelo operacional mais dispendioso da aviação comercial. A este cenário somam-se prejuízos com a formação de pilotos na ordem dos 87.207,99 dólares americanos, cujas qualificações correm o risco de ter caducado devido à imobilização prolongada dos aviões por mais de seis meses na África do Sul.

Esta imobilização e o posterior regresso das aeronaves a Maputo geraram profundas contradições entre o discurso oficial da empresa e a realidade técnica. A LAM informou recentemente que os dois aviões já se encontram na capital e aptos a operar, justificando a permanência na África do Sul com «trabalhos de pintura». Contudo, esta explicação entra em choque directo com os dados da auditoria, que revelaram a existência de avarias sérias nos motores e a necessidade de uma complexa reengenharia financeira para viabilizar a sua recuperação.

No âmbito das investigações, o GCCC chegou a solicitar os passaportes, contratos de trabalho e extratos bancários de membros chave da Comissão de Gestão, nomeadamente Tomás Matola (PCA da HCB), Agostinho Langa (PCA dos CFM), Lucas Francisco (Vogal Financeiro) e Dane Kondic (CEO). No entanto, informações em poder do CDD indicam que esta documentação não terá sido entregue pela administração, sem que o órgão anticorrupção tenha tornado pública qualquer medida coerciva ou esclarecimento sobre as suas acções.

Em vez de responsabilização dos visados pelas irregularidades apontadas, o processo de fiscalização interna sofreu um duro golpe administrativo. Gisela Angela Gomes Mabota foi exonerada do cargo de Directora de Auditoria Interna a 30 de Junho de 2026 e, no dia seguinte, o Comandante Jorge Zandamela, Vogal para a Área Técnico-Operacional e responsável por determinar a realização da auditoria, foi igualmente afastado das suas funções. Esta sequência de exonerações reforça a percepção pública de que denunciar práticas ilícitas traz consequências mais céleres do que praticá-las.

Paralelamente aos escândalos financeiros e à crise de governação, a operação diária da transportadora aérea de bandeira atinge níveis críticos, afectando directamente passageiros e o tecido económico. A taxa de pontualidade da empresa situa-se actualmente em cerca de 53%, valor substancialmente abaixo dos 85% recomendados pela indústria internacional, enquanto acumulam-se relatos de atrasos no pagamento a fornecedores estratégicos de serviços de placa e catering, como a MAHS e a SMS Catering. Num momento em que a LAM investe somas avultadas em campanhas publicitárias para branqueamento de imagem, a sociedade civil e os contribuintes moçambicanos aguardam que as instituições de justiça quebrem o silêncio e ajam com rigor.

Imagem: DR

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