Ragendra de Sousa alerta para o “discurso triunfalista” dos recursos minerais e defende realismo económico

O antigo Ministro da Indústria e Comércio de Moçambique, Ragendra de Sousa, lançou um forte alerta sobre as expectativas irrealistas geradas em torno da abundância de recursos naturais no país e no continente africano.

Numa reflexão pragmática sobre a economia nacional, o economista defendeu a necessidade de se abandonar a retórica do “temos, temos, temos” e focar na criação de condições concretas para transformar o potencial científico e os recursos em crescimento real.

Durante a sua intervenção no dia de África, De Sousa ironizou a perceção pública de que a riqueza do subsolo se traduz em benefícios imediatos no bolso dos cidadãos. “Nós passamos para o público a imagem de que os recursos, recursos, recursos… vão melhorar a vida inteira”, apontou, exemplificando de forma satírica que a distribuição de riqueza não se faz dividindo “sacos de carvão” ou “balões de gás” pela população.

Para o antigo governante, o desenvolvimento económico assenta em regras de mercado globais que Moçambique não pode ignorar. Ragendra de Sousa explicou que a viabilização de mega-projectos, como o gás natural da Bacia do Rovuma, exige paciência estratégica e negociações realistas com as multinacionais.

“Ninguém vai investir aqui no gás se nós lhe cobrarmos imposto no primeiro ano. Não vai”, advertiu o antigo ministro, sublinhando que a prática internacional dita que as empresas apenas pagam impostos estruturais após recuperarem o capital investido. Sem esta flexibilidade, adverte, o país corre o risco de adiar ciclicamente os projectos, mantendo os anúncios apenas nas páginas dos jornais.

O antigo ministro defende que o continente africano dispõe de recursos humanos e naturais suficientes para impulsionar o seu próprio desenvolvimento. Contudo, o segredo do sucesso não reside na matéria-prima em si, mas sim na capacidade de criar uma “ciência pós-recursos minerais”.

A análise de Ragendra de Sousa surge num momento crucial de debate em Moçambique sobre a gestão das expectativas sociais face aos recursos e à sustentabilidade das receitas públicas para a melhoria efectiva das condições de vida das populações.

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