“Sentimento de Exclusão”: chefes de localidade de Cabo Delgado reclamam margem dos megaprojectos de gás

O debate em torno do desenvolvimento económico e social em Cabo Delgado voltou a aquecer na capital do país. Líderes comunitários e chefes de localidade de distritos severamente afectados pela instabilidade e pelos megaprojectos de gás vieram a público reiterar um profundo sentimento de exclusão das comunidades locais face às oportunidades geradas pela indústria extrativa.

Segundo a STV, durante a primeira Reunião Nacional dos Chefes de Localidade, decorrida em Maputo, representantes de zonas nevrálgicas como Palma, Mueda e Metuge expuseram um cenário marcado por barreiras no acesso ao emprego, desarticulação da economia familiar e os impactos profundos deixados pelo terrorismo na região norte.

A contestação ganha contornos mais vincados quando se analisam os programas de capacitação técnica destinados à mão-de-obra local. Recentemente, a decisão de centralizar a formação técnico-prática de centenas de jovens moçambicanos no Instituto Industrial e Comercial da Matola, no sul do país, no âmbito de parcerias com o consórcio liderado pela TotalEnergies (Mozambique LNG), gerou forte contestação por parte da sociedade civil, empresários e comunidades locais.

Enquanto o Executivo e as entidades governamentais justificam a medida com critérios estritamente técnicos — argumentando que a instituição sulista já dispõe de infra-estruturas, oficinas e laboratórios imediatamente operacionais para cumprir os rigorosos padrões internacionais da indústria de Gás Natural Liquefeito (GNL) —, as vozes locais exigem que o investimento e a capacitação fiquem na província produtora.

A juventude encara uma grande dificuldade. A Total estava a recrutar jovens para a LNG, mas a formação é feita longe, enquanto a população de Palma ainda chora por um emprego e vê os trabalhadores locais deslocados dos acampamentos.

Nas bases, o dia a dia das populações evidencia a lentidão na retoma plena da normalidade socioeconómica.

Em Palma, líderes locais apontam que muitas famílias que investiram na construção de habitações para arrendamento viram os seus rendimentos colapsar devido à concentração dos trabalhadores nos acampamentos corporativos. As comunidades apelam à criação de condições para o retorno efectivo às zonas de origem e o envolvimento directo na cadeia de valor.

Em Mueda, o foco recai sobre a reconstrução do tecido agrícola e a superação de graves falhas logísticas. Com culturas de subsistência e rendimento — como a mandioca e o coco — destruídas pelo conflito, a escassez de transporte e a dificuldade no escoamento dos produtos continuam a estrangular as famílias locais.

Em Metuge, o distrito assume-se como um dos que maior fluxo de famílias deslocadas acolheu a sul. Embora as autoridades locais indiquem que a situação humanitária está estabilizada graças à articulação com organizações não-governamentais, o distrito continua a braços com uma forte pressão demográfica e social que exige respostas estruturais contínuas.

O encontro em Maputo serviu, assim, como um barómetro directo das aspirações e frustrações locais, recordando que a estabilidade duradoura em Cabo Delgado depende de uma repartição mais inclusiva e directa dos frutos dos megaprojectos de recursos naturais.

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