Xenofobia ameaça economia sul-africana – O País

Jornalista José de Nascimento defende reforço da segurança e revisão da governação sul-africana perante a persistência dos actos xenófobos

As manifestações que têm ocorrido na África do Sul, particularmente às quintas-feiras, continuam a suscitar preocupações sobre a segurança dos imigrantes e o impacto da xenofobia na economia do país. Segundo o jornalista José de Nascimento, que se encontra na África do Sul, os protestos, inicialmente mais concentrados em Durban, agora denominada eThekwini, deverão estender-se à província de Mpumalanga, onde estão previstas novas manifestações.

José de Nascimento explica que, ao contrário da mobilização registada a 30 de Junho, os actuais protestos têm tido uma incidência mais localizada, embora exista preocupação com a sua expansão para outras regiões do país.

O jornalista considera que as autoridades sul-africanas devem reforçar a segurança e actuar de forma mais firme para proteger os imigrantes. Segundo afirma, a polícia tem demonstrado maior intervenção, citando como exemplo um episódio recente em que impediu manifestantes de atacarem um grupo de imigrantes que se encontrava acampado junto do Departamento de Administração Interna, na tentativa de solicitar o estatuto de refugiado ou asilo político.

Para José de Nascimento, a persistência de actos xenófobos está a afectar negativamente a imagem internacional da África do Sul e poderá ter consequências económicas, sobretudo nas zonas fronteiriças e nas regiões que mantêm fortes relações comerciais com os países vizinhos.

XENOFOBIA AFECTA ECONOMIA

O jornalista chama particular atenção para a província de Mpumalanga, onde, segundo explica, a actividade económica está fortemente ligada ao intercâmbio com Moçambique.

Nascimento destaca o crescimento de Mbombela, anteriormente conhecida como Nelspruit, atribuindo parte desse desenvolvimento ao intercâmbio comercial e industrial com Moçambique. Salienta que a circulação de cidadãos moçambicanos que atravessam a fronteira para realizar compras e desenvolver actividades comerciais representa uma importante fonte de dinamização económica para a região.

Neste contexto, alerta que a continuidade dos actos xenófobos e a eventual redução da circulação de cidadãos estrangeiros poderão provocar consequências negativas para a economia local e, de forma mais ampla, contribuir para o enfraquecimento da economia sul-africana.

O jornalista defende, por isso, que o Governo sul-africano deve rever aspectos da sua governação, particularmente no que diz respeito à política migratória e à forma como as autoridades respondem aos episódios de violência contra estrangeiros.

 

POLÍCIA DEVE ACTUAR CONTRA VIOLÊNCIA

 

José de Nascimento considera que, numa primeira fase, as autoridades devem reforçar a presença policial e responsabilizar criminalmente os autores de ataques contra imigrantes.

Defende igualmente uma intervenção de maior alcance, acompanhada por programas de educação cívica dirigidos não apenas às escolas, mas à sociedade sul-africana no seu conjunto, com o objectivo de combater preconceitos e reduzir a hostilidade contra estrangeiros.

Na sua análise, a questão ultrapassa a situação dos imigrantes em situação irregular ou sem documentação, uma vez que, independentemente do seu estatuto migratório, todos os indivíduos estão protegidos pelos direitos humanos e não devem ser vítimas de violência física, psicológica ou emocional.

 

RELAÇÕES COM MOÇAMBIQUE EM RISCO

O jornalista considera ainda que a xenofobia pode prejudicar as relações da África do Sul com outros países africanos, particularmente com os Estados vizinhos. No caso de Moçambique, recorda que milhares de pessoas atravessam regularmente a fronteira para trabalhar, fazer negócios ou realizar compras na África do Sul, contribuindo para a circulação de bens e capitais entre os dois países.

Nascimento defende que a África do Sul deve adoptar uma abordagem migratória mais inclusiva e transformar as declarações políticas em medidas concretas.

Para o jornalista, a União Africana e a SADC também devem assumir uma posição mais exigente perante as autoridades sul-africanas, tendo em conta que os episódios de xenofobia têm ocorrido de forma cíclica nos últimos anos.

 

MANIFESTAÇÕES CHEGAM A MPUMALANGA

As manifestações que têm ocorrido regularmente às quintas-feiras deverão, desta vez, ter como novo foco a província de Mpumalanga. José de Nascimento admite que a mobilização poderá manter-se pacífica, mas alerta para a necessidade de reforço da segurança, considerando que a evolução dos protestos poderá ser imprevisível. O jornalista recorda ainda que a actual situação ocorre num país cuja história de luta contra o apartheid contou com o apoio de vários Estados africanos, incluindo Moçambique, Angola e Zimbabwe.

Na sua perspectiva, a defesa dos direitos dos imigrantes e o combate à xenofobia devem ser encarados também como uma questão de responsabilidade regional, num continente onde a mobilidade das populações e as relações económicas entre países são cada vez mais importantes.

 

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