The Guardian, uma instituição jornalística de referência internacional, publicou a 25 de Dezembro de 2025 uma reportagem detalhando a expansão da insurgência islâmica em Moçambique e o impacto humanitário devastador que esta tem causado.
Desde julho de 2025, mais de 300 mil pessoas foram deslocadas devido à intensificação dos ataques de militantes ligados ao Estado Islâmico na província de Cabo Delgado, no norte do país. Este conflito, que começou em outubro de 2017 com os primeiros ataques em Mocímboa da Praia, já obrigou mais de 1 milhão de pessoas a fugir, muitas delas repetidamente, com famílias deslocadas duas, três ou até quatro vezes.
Apesar do envolvimento militar do Rwanda, com cerca de 4 000 a 5 000 tropas, e das forças moçambicanas, a insurgência não foi contida. Segundo dados da organização independente ACLED, a violência contra civis aumentou em 2025, com 549 mortes em 302 ataques, mais de metade civis, representando um aumento de 56% face ao ano anterior. Desde 2017, cerca de 2.800 civis foram mortos, 80% pelas forças do IS-Mozambique e mais de 9% pelas forças moçambicanas.
A insurgência ganhou atenção internacional em março de 2021 com o ataque à cidade de Palma, que resultou em mais de 600 mortos, incluindo trabalhadores estrangeiros do projeto de gás natural liquefeito da Total. Em novembro de 2025, só esse mês viu mais de 100 mil deslocados, após ofensivas militares que empurraram os insurgentes para o sul, chegando até à província de Nampula.
Tomás Queface, investigador da ACLED, descreveu os insurgentes como “muito audaciosos”, observando que as forças rwandesas e moçambicanas já não são tão eficazes como anteriormente, com as tropas de Rwanda a reduzirem as patrulhas e o governo a querer que as forças moçambicanas assumam a liderança no conflito.
O Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, empossado em janeiro de 2025, declarou em setembro à Al Jazeera que pretende abrir diálogo com os insurgentes, numa tentativa de conter a violência e encontrar uma solução pacífica.
O The Guardian salienta ainda que, com guerras em Ucrânia, Gaza e Sudão a captar mais atenção internacional e a ajuda externa a diminuir, a crise humanitária em Moçambique tem sido largamente ignorada, deixando milhares de civis em situação de extrema vulnerabilidade, sem acesso suficiente a abrigo, alimentação e cuidados essenciais. Encontre a investigação completa aqui.