O jornalista americano Alex Perry acaba de publicar um livro sobre Cabo Delgado intitulado “Blood wil Flow”, a ser traduzido em breve em várias línguas, nomeadamente o português.
Em 2021, Palma, no norte de Moçambique, foi cenário de um ataque que resultou em quase 1500 mortos. O jornalista americano Alex Perry considera que este foi o segundo maior ataque terrorista de sempre, atrás do 11 de Setembro.
De acordo com a publicação da RFI, durante cinco anos, realizou uma pesquisa no terreno que fez emergir a dimensão do massacre e também dos abusos cometidos por forças governamentais contra centenas de civis. O livro que acaba de lançar sobre o assunto intitula-se “Blood Will Flow” – “Vai Correr Sangue”.
“Houve alguns anos em que eu, sozinho, carregava as memórias de 1500 pessoas. Eu era a única pessoa que sabia. Levei isso muito a sério. Numa situação normal, o Estado teria feito uma contagem de vítimas, calculado quantas pessoas morreram, e seria possível encontrar essa informação num site do Governo. Não seria necessário fazer tudo o que eu fiz durante anos e anos. Procurei estabelecer os factos sobre quem morreu e quantos. Sim, era remoto e difícil de quantificar, mas a principal razão pela qual não foi feito foi porque o Estado e a TotalEnergies, de forma muito deliberada, não quiseram quantificar, porque ficaria mal para ambos. Ainda hoje continuam a negar o que aconteceu”, disse Alex Perry há dias durante a apresentação da obra em Londres.
Para o jornalista, a verdadeira razão para a instabilidade naquela região no norte de Moçambique é o capitalismo descontrolado e a fome da TotalEnergies por lucros, que reduziu as despesas na segurança e limitou os benefícios para a população local do megaprojecto de extracção de gás natural.
“Neste projecto, há tanta riqueza nos campos de gás que tem o potencial de transformar Moçambique. Acho que isso vai acontecer? Nem pensar. Nem pensar, da forma como está a ser gerido actualmente. Neste momento, trata-se de fazer dinheiro para accionistas a 8000 km de distância e para um punhado de ministros do Governo. Apenas 0,41% vai para os habitantes locais. Mesmo o pouco que chega ao terreno está repleto de problemas. Existe um regime de indemnização para compensar as 2500 pessoas que tiveram de ser desalojadas do recinto da Total. Esse regime está viciado por corrupção. Portanto, não, neste momento, penso que as hipóteses de beneficiar Moçambique são mínimas”, considerou o jornalista.
Recorde-se que há poucas semanas, o governo moçambicano e a TotalEnergies anunciaram a retomada efectiva este ano do megraprojecto de exploração de gás da multinacional francesa no norte de Moçambique depois de cerca de cinco anos de interrupção devido aos ataques terroristas naquela região.
De acordo com a organização de monitoria de conflitos ACLED, a violência que tem sido uma constante em Cabo Delgado desde Outubro de 2017, provocou mais de 6500 mortos em cerca de nove anos de ataques perpetrados por grupos que, para alguns deles, reivindicam elos com os jihadistas do Estado Islâmico.
Apesar da presença de tropas estrangeiras no terreno, nomeadamente contingentes ruandeses, a insegurança continua a prevalecer na província nortenha, tendo havido denúncias de abusos não só por parte dos insurrectos, como também de alguns elementos das forças de defesa nacionais.
O desempenho das autoridades como também da TotalEnergies foi denunciado por algumas entidades e nomeadamente por Alex Perry que publicou, entre outras investigações sobre o tema, um artigo intitulado “All must be Beheaded” (“Todos devem ser degolados”), em Outubro de 2024.
Em Novembro de 2025, foi apresentada uma queixa-crime contra o gigante dos hidrocarbonetos junto do Ministério Público francês. A queixa dá conta de factos de “cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimentos forçados” em Moçambique e foi apresentada pela organização não-governamental Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR).
Já em 2023, uma outra queixa tinha sido igualmente apresentada junto das autoridades francesas contra a TotalEnergies por “homicídio involuntário” e “não assistência a pessoa em perigo”, aquando do ataque a Palma, em Moçambique. Uma acção movida por alguns sobreviventes do massacre e familiares de vítimas.
Acusações desmentidas pela multinacional.
Autor de inquéritos não só sobre Cabo Delgado, como também sobre as estruturas de ajuda humanitária, ou ainda a globalização, Alex Perry publicou o seu novo livro em Março no Reino Unido. A obra “Blood Will Flow” vai ser traduzida em várias línguas, incluindo português.
(Foto DR)