Mambas e Dragões: Quando a Diplomacia Económica Atravessa Oceanos para Reconstruir a Independência de Moçambique

Da geopolítica à fábrica: a hora de transformar amizade em capacidade produtiva

Há momentos na história económica de uma nação em que a diplomacia deixa de ser apenas protocolo e passa a ser instrumento directo de produção, emprego e soberania. É precisamente assim que leio a recente deslocação de Sua Excelência o Presidente da República, Daniel Chapo, à China. Não foi apenas uma visita de Estado, foi, na minha leitura de economista, uma travessia estratégica entre o presente das nossas vulnerabilidades e o futuro da nossa independência económica.

Saúdo, com elevado sentido de responsabilidade nacional, a visão e a determinação do Chefe do Estado e do Governo por percorrer longos quilómetros para estreitar a diplomacia económica, fortalecer parcerias estratégicas e relançar Moçambique numa trajectória de industrialização, produtividade e independência económica. Há muito sustento que a independência política, sem musculatura económica própria, é como uma ponte suspensa sobre o vazio: impressiona à distância, mas carece de sustentação real.

É neste contexto que a relação entre os Mambas e os Dragões ganha um simbolismo profundamente económico. De um lado, Moçambique, com a energia vibrante de um país jovem, rico em recursos e sedento de transformação. Do outro, a China, uma potência industrial que em poucas décadas passou de economia agrária a uma das maiores máquinas produtivas do mundo. O que está em jogo não é apenas cooperação bilateral, é a possibilidade de Moçambique reposicionar-se no mapa global do investimento, da produção e da tecnologia.

A elevação das relações entre os dois países para uma nova etapa de parceria estratégica, acompanhada pela assinatura de múltiplos instrumentos de cooperação, deve ser lida para além da linguagem diplomática. Em economia internacional, cada acordo desta natureza representa redução de custos de transacção, aliás, como foi assinado acordo de isenção de tarifas de importações para os produtos nacionais que pretende desfilar nas prateleiras do mercado chinês, mitigação do risco-país percebido e, sobretudo, ampliação da confiança do capital produtivo. A confiança, como costumo dizer, é a primeira matéria-prima do investimento.

  1. Da extracção à transformação: o grande teste da nossa geração

O ponto central deste novo capítulo diplomático reside, a meu ver, na mudança de paradigma económico que ele pode desencadear.

Durante décadas, Moçambique habituou-se a exportar abundância em estado bruto e a importar valor agregado. Vendemos carvão, grafite, gás, areias pesadas, madeira e alumínio, mas continuamos a comprar tecnologia, equipamentos, fertilizantes, máquinas e bens industriais acabados. Este modelo gerou receitas, sim, mas também perpetuou uma dependência estrutural do exterior e limitou o desenvolvimento do nosso tecido industrial.

  • É aqui que a actual aproximação com a China pode representar uma ruptura histórica.

O grande desafio não é apenas captar investimento estrangeiro directo. O verdadeiro desafio é assegurar que esse investimento se traduza em capacidade produtiva interna, transferência tecnológica, formação de capital humano e aumento do valor acrescentado nacional.

Em termos económicos, o problema de Moçambique não é a escassez de recursos, é a baixa retenção interna de valor. Exportamos matéria-prima a preços primários e reimportamos produtos finais com elevadas margens industriais. Em linguagem mais directa: vendemos a pedra e compramos a bateria, vendemos o gás e compramos o fertilizante, vendemos o recurso e compramos a tecnologia.

  • A nova fase da relação com a China deve servir precisamente para inverter esta lógica.

       2. Industrialização: onde a diplomacia encontra a fábrica

A ênfase colocada pelo Presidente da República na instalação de fábricas, produção de maquinaria pesada e transferência de tecnologia revela uma compreensão acertada do momento económico do país.

Moçambique está ainda em construção física, institucional e economicamente. Precisamos de estradas, pontes, edifícios, infra-estruturas energéticas, infra-estruturas de apoio aos sectores de produção com elevado potencial, parques industriais (clusterização das indústrias) e cadeias logísticas. Contudo, a questão estratégica é esta: continuaremos a importar quase tudo o que precisamos para construir o país, ou começaremos a produzir parte significativa desses meios de produção dentro do nosso território?

  • É aqui que reside a verdadeira inteligência económica desta diplomacia.

A instalação de unidades industriais ligadas à produção e montagem de maquinaria para construção civil, mineração, agricultura e energia pode representar um salto estrutural. Não se trata apenas de reduzir importações, trata-se de criar um ecossistema industrial com efeitos multiplicadores robustos sobre a economia.

Cada fábrica instalada gera muito mais do que emprego directo. Gera procura por serviços logísticos, manutenção técnica, fornecimento de peças, transporte, formação profissional, engenharia e serviços financeiros. Em termos macroeconómicos, o multiplicador do investimento industrial tende a ser significativamente superior ao de sectores puramente extractivos.

  • Por outras palavras, uma fábrica não produz apenas máquinas, produz rendimento, consumo, arrecadação fiscal e dinamismo económico regional.

   3. A grande oportunidade: transformar recursos em cadeias de valor

Moçambique tem, neste momento, uma oportunidade rara de se posicionar não apenas como fornecedor de recursos, mas como participante activo nas cadeias globais de valor.

A China domina sectores estratégicos como maquinaria pesada, agro-processamento, indústria mineira, componentes tecnológicos e cadeias de baterias. Por sua vez, Moçambique possui recursos minerais críticos, vasto potencial agrícola, posição geográfica privilegiada e acesso aos mercados regionais da SADC.

  • A complementaridade é evidente.

No sector mineiro, por exemplo, o processamento local da grafite em Niassa deve ser entendido como um modelo replicável. Não basta extrair minério, é necessário avançar para fases superiores da cadeia, incluindo processamento, refinação e, idealmente, produção de componentes industriais.

O mesmo raciocínio aplica-se ao gás natural. O país não pode limitar-se à exportação de gás bruto ou LNG. Precisamos de avançar para fertilizantes, petroquímica, metanol, plásticos industriais e outros derivados de maior valor.

  • É nesta transição que se constrói a independência económica.

4. O verdadeiro teste: transformar acordos em resultados

Mas permitam-me falar com frontalidade, como economista e cidadão.

Moçambique tem sido historicamente forte na formulação de visões estratégicas, mas frequentemente frágil na execução.

A economia não cresce por força de memorandos, comunicados ou discursos. Cresce quando o capital desembolsa, quando a obra começa, quando a fábrica produz e quando o emprego se materializa.

O verdadeiro teste desta nova fase diplomática não está na assinatura dos acordos, mas na sua conversão em projectos concretos, cronogramas exequíveis, desembolsos efectivos e produção real.

Precisamos de ambiente regulatório previsível, segurança jurídica, eficiência institucional e rapidez na tomada de decisões.

Sem isto, a melhor diplomacia económica corre o risco de permanecer apenas no campo das intenções.

  5. Conclusão: a independência económica começa na coragem de produzir

Escrevo este artigo na primeira pessoa porque acredito que este é um momento que interpela todos nós enquanto nação.

A visita à China representa mais do que um gesto diplomático. Representa uma possibilidade concreta de redefinir a trajectória económica de Moçambique.

Parabenizo Sua Excelência o Presidente da República e o Governo pela coragem, visão e persistência em colocar a diplomacia económica ao serviço da transformação estrutural do país.

A distância percorrida até à China não foi apenas física. Foi, sobretudo, a distância entre a dependência e a soberania produtiva.

  • Entre o país que exporta riqueza em bruto e o país que produz valor;
  • Entre a promessa e a fábrica;
  • Entre a retórica e a independência económica.

E é precisamente neste caminho que Moçambique deve seguir: não apenas negociar no mundo, mas produzir para o mundo.

 

Por: Clésio Foia, Economista- Chefe

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