Trinta jovens programadores de seis universidades de Maputo, alguns com experiência neste tipo de evento, outros a participar no seu primeiro hackathon, reuniram-se para desenvolver soluções tecnológicas contra um dos crimes mais complexos: o tráfico de pessoas.
Organizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a Knowledge Foundation e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e com apoio da Noruega, o evento desafiou os participantes a criar soluções tecnológicas para prevenir o tráfico e apoiar sobreviventes.
Antes do desafio de 48 horas, os participantes passaram por um bootcamp intensivo, adquirindo conhecimentos na área do tráfico de pessoas, incluindo formas digitais, tecnologias emergentes e utilização da tecnologia para impacto social, bem como técnicas de desenvolvimento e apresentação de ideias. Foram orientados por professores da UEM, especialistas do UNODC, mentores da Knowledge Foundation e membros da equipa vencedora do Hackathon “Coding4Integrity” 2024, oriunda da África do Sul.
O contributo da PGR foi essencial para o sucesso do bootcamp, tendo ministrado uma sessão de formação sobre as tendências e desafios actuais em Moçambique no combate a este fenómeno, proporcionado uma interacção directa entre jovens da área da programação com a PGR, que coordena as actividades do Grupo de Referência Nacional de Combate de Protecção à Criança, Combate ao Tráfico de Pessoas e Migração Ilegal.
“Recebemos uma verdadeira chuva de questões: ‘Como funcionam na prática as investigações? Como funciona a cooperação com outros países? Que mecanismos existem nas fronteiras para detectar casos de tráfico?’, recorda a Procuradora e formadora do bootcamp Inilsa Esteves. “Foi óptimo trabalhar com um público tão jovem”.
Após o bootcamp, os participantes desenvolveram soluções para um dos dois desafios propostos no hackathon de 48h: a prevenção da vitimização de potenciais vítimas através da tecnologia e a reintegração das vítimas de tráfico.
Optando pelo segundo desafio, a equipa “Libertech”, composta por Domingos Alfredo, Esperança Munlela e Isa Neide Sitoe, pensaram: “E se criássemos uma plataforma que capacitasse as vítimas do tráfico? Que prevenisse o ‘retráfico’ após o seu resgate?” Assim nasceu a plataforma WIRA, “reerguer, revitalizar, reedificar” em Macua, uma plataforma onde vítimas podem receber capacitação directa em várias áreas, desde a costura à agricultura sustentável, passando pela culinária.
“A WIRA devolve às vítimas aquilo que o tráfico lhes roubou: a capacidade de escolher o seu próprio futuro, criando oportunidades económicas reais para as vítimas, para que nunca mais precisem de ser resgatadas”, explica a equipa.
Adaptada à realidade moçambicana, WIRA funciona via USSD e SMS, permitindo que utilizadores com telemóveis sem acesso à internet possam usar a plataforma.
Outras soluções apresentadas pelas equipas incluíram canais de denúncia anónimos e seguros, sistemas de verificação de ofertas de emprego fraudulentas, ferramentas de análise preditiva com machine learning e plataformas de conscientização para grupos vulneráveis.
Miro Lino, um “hackathoner”, partilhou a sua experiência: “Foi o meu primeiro hackathon. Aprendi imenso, não só sobre tecnologia, mas sobre o tráfico de pessoas. Percebi que o que eu sabia sobre o tema estava muito longe da realidade.” “Eu amo muito programar, e programar para a causa do combate ao tráfico de pessoas foi realmente especial”, afirmou Isaltina Pepete, outra participante.
O painel de avaliação incluiu representantes da PGR, do Ministério das Comunicações e Transformação Digital, da BCX e da WansaTi Lab, Associação Moçambicana de Mulheres na Tecnologia.
Dra. Iara Gonçalves, Chefe de Departamento de Matemática e Informática da Faculdade de Ciências da Universidade Eduardo Mondlane, destaca a importância deste tipo de iniciativas de modo a assegurar uma formação universitária o mais completa possível: “A tradicional formação académica deve sempre aliar-se à aplicação prática, em particular quando os desafios propostos versam sobre questões concretas da nossa sociedade e as respostas dadas enquadram-se na realidade específica do nosso país”.
“Foi muito bom, em particular, ver o aumento na auto-confiança que a participação exitosa no evento trouxe aos participantes, em particular nas estudantes do sexo feminino, subrepresentadas nas áreas das STEM (Science, Technology, Engineering and Maths) e frequentemente duvidam do seu potencial”, frisou.
Daya Hayakawa, Coordenadora Regional do UNODC para Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes na África Austral, destacou: “Foi inspirador trabalhar com estas mentes jovens. Permite trazer os jovens para o centro da questão e ver soluções práticas e de baixo custo que podem ser implementadas no país. As perguntas, dúvidas e reflexões que os “hackathoners” nos colocaram – diferentes do que costumo ouvir no meu dia-a-dia – ensinaram-me tanto quanto esperamos ter-lhes ensinado sobre este fenómeno.”