O Governo moçambicano está a enfrentar sérias dificuldades para mobilizar recursos financeiros através dos canais tradicionais. Perante a fraca apetência dos investidores pelas Obrigações do Tesouro (OT) — cuja execução afundou de 83,4% em 2024 para uns expressivos 15,8% em 2025 —, o Executivo tem estado a recorrer massivamente ao financiamento directo junto do Banco de Moçambique (BdM). Esta forte dependência, contudo, está a asfixiar as contas da Autoridade Monetária.
Segundo uma análise recente publicada pelo Centro de Integridade Pública (CIP), baseada no Relatório e Contas do BdM, a posição financeira do Banco Central registou uma deterioração acentuada. Após ter fechado o ano de 2023 com um resultado líquido positivo de 2.727 milhões de meticais, o BdM mergulhou em prejuízos graves nos anos seguintes. Em 2024, as contas fecharam no vermelho em 3.794 milhões de meticais, e, em 2025, o défice disparou para uns históricos 12.822 milhões de meticais — um agravamento alarmante de cerca de 238% de um ano para o outro.
A perda de apetite do mercado pelas Obrigações do Tesouro intensificou-se depois de o Governo ter decidido substituir títulos de curto prazo por instrumentos de médio e longo prazo, uma manobra que os investidores associam frequentemente ao risco de incumprimento da dívida. Sem conseguir vender as OT, o Governo virou-se para os Bilhetes do Tesouro (BT) e para o crédito directo no BdM. O stock da dívida do Estado junto do Banco Central saltou de 42.064,5 milhões de meticais em 2023 para 95.664,5 milhões em 2025, o que representa um crescimento acumulado de 127,4%.
Para evitar que esta injecção massiva de dinheiro na economia gerasse uma inflação galopante, o Banco de Moçambique foi obrigado a intervir. O BdM teve de emitir instrumentos de política monetária para “esterilizar” (absorver) esse excesso de liquidez no mercado. No entanto, esta operação tem custos pesados: os gastos com juros e operações de absorção de liquidez são suportados pelo próprio Banco Central, o que acabou por canibalizar os seus resultados financeiros.
É o fenómeno económico que ocorre quando as necessidades de financiamento do Estado começam a condicionar fortemente a actuação do Banco Central, limitando a sua independência e pondo em risco a sua autonomia financeira e operacional.
Apesar do cenário preocupante, o CIP sublinha que os dados actuais ainda não permitem afirmar que Moçambique esteja sob uma situação de “dominância fiscal plena”. O grande indicador a favor do Banco Central é o controlo da inflação. Mesmo com as pressões de financiamento ao Estado, a inflação homóloga manteve uma trajectória descendente, recuando de 5,3% no final de 2023 para 3,2% em 2025.
Paralelamente, o BdM conseguiu manter uma postura restritiva, reduzindo a taxa de juro de política monetária (MIMO) de forma gradual de 17,25% em 2023 para 9,75% em Setembro de 2025.
Embora a inflação continue controlada, o CIP alerta que a margem de manobra do Banco de Moçambique está a estreitar-se perigosamente. Se esta trajectória de endividamento continuar no médio e longo prazo, o Banco Central poderá ter sérias dificuldades em conciliar a estabilidade de preços com o papel de “financiador de última hora” do Executivo.
O relatório do CIP aponta ainda que, no presente ano de 2026, o Governo tenciona recorrer ao Fundo Soberano para executar o seu plano, o que expõe a fragilidade das finanças públicas nacionais. Além do risco de inflação caso a liquidez não seja totalmente esterilizada, o recurso constante a este tipo de financiamento sinaliza ao mercado uma incapacidade do Estado em arrecadar receitas fiscais ordinárias. Isto exige prémios de risco mais elevados, afasta o investimento e gera um efeito de crowding out (expulsão), prejudicando o sector privado, o crescimento económico e a criação de emprego em Moçambique.
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