“Sul-africanos não são xenófobos” – garante porta-voz da Presidência

A África do Sul reagiu nesta quarta-feira (06) às acusações de xenofobia após protestos contra os migrantes, Pretoria considerando que os países africanos devem actuar contra a instabilidade política e a má governação que levam as suas respectivas populações a emigrar. Declarações que surgem após semanas de incidentes e numa altura em que centenas de pessoas desfilaram ontem em Durban, no litoral, para exigir medidas contra os migrantes em situação irregular.

“Os sul-africanos não são xenófobos”, garantiu o porta-voz da Presidência, Vincent Magwenya, ao reforçar que o poder sul-africano está “a lidar com focos de protesto, o que é permitido pela Constituição”.

De acordo com o responsável citado pela RFI, ainda que durante uma reunião na terça-feira (05), o Presidente sul-africano e o seu homólogo moçambicano chegaram a um consenso sobre a necessidade de “o continente trabalhar em conjunto para resolver os problemas que estão na origem destes níveis de migração”.

O porta-voz da Presidência afirmou ainda que os dois dirigentes consideraram que “os conflitos, os problemas de instabilidade e, em algumas regiões (…) a má governação levam as populações a migrar em grande número e a buscar refúgio em diferentes partes do continente, incluindo na África do Sul.”

Ao sublinhar que a xenofobia não é um fenómeno que atinge todo o país, o economista guineense e professor na Universidade Nelson Mandela na Cidade do Cabo, Carlos Lopes, lamenta que o poder não informe melhor a sua população sobre o contributo dos estrangeiros para a África do Sul.

“Primeiro é preciso dizer que a amplitude que é dada a esse fenómeno nas redes sociais às vezes trai o facto de estarmos num país muito grande e de esses fenómenos estarem a acontecer em sítios geograficamente muito localizados da África do Sul, nomeadamente a província do Kwazulu Natal (no nordeste do país) e à volta de Joanesburgo (no norte), que é uma cidade que também tem uma demografia muito parecida com a do Kwazulu Natal. Eu vivo numa outra província, vivo na província do Cabo Ocidental (no sul) e aqui praticamente não temos nenhum fenómeno dessa natureza, porque a composição demográfica também é muito diferente. E porque, isto é uma cidade capital que é muito cosmopolita e que sempre foi, mas cosmopolita, não necessariamente no segmento que está a provocar essas tensões, que é o segmento das pessoas mais vulneráveis, que estão nos Townships, nas zonas onde existe o comércio de varejo, muito próximo do informal e onde as pessoas que estão desempregadas ou têm ocupações precárias, pensam que estão a ser exploradas por causa dos estrangeiros, quando na realidade não tem nada a ver”, analisa o académico.

“É uma pena que o governo não faça o necessário para esclarecer melhor a contribuição dos estrangeiros e tente um pouco utilizar de uma forma populista estes fenómenos para demonstrar, digamos, a sua atitude de simpatia com esses movimentos, porque estamos muito próximos das eleições locais que vão ter lugar no mês de Novembro”, aponta o economista.

Moçambique, vizinho imediato da África do Sul onde vivem e trabalham pelo menos 300 mil dos seus cidadãos, diz acompanhar com atenção a situação que se vive designadamente em Pretória, Joanesburgo e Durban, onde se têm concentrado alguns dos incidentes xenófobos das últimas semanas. Ainda nesta terça-feira, perante o parlamento moçambicano, a Primeira-ministra Benvinda Levi disse que “o Governo repudia e condena de forma veemente os ataques de xenofobia que estão a ocorrer no país vizinho, a África do Sul, contrariando os valores e espírito de tolerância e de convivência pacífica e harmoniosa entre irmãos do Continente Africano e da SADC”.

Uma série de protestos e também ataques contra migrantes tem abalado o país mais industrializado do continente, havendo igualmente relatos de manifestantes que terão tentado impedir o acesso de estrangeiros a centros de saúde.

Ainda na quarta-feira, Durban, no sul do país, foi palco de uma manifestação para exigir medidas do governo contra os migrantes em situação irregular que possuem pequenos comércios. Perante esta situação, para além de Moçambique, outros países como Angola, a Nigéria e o Gana manifestarem a sua preocupação em diversos fóruns.

O Governo nigeriano criticou na segunda-feira Pretória por não pôr termo ao assédio contra os imigrantes e organizou voos de repatriamento de emergência para os seus cidadãos residentes naquele país, depois de recentes incidentes em que dois nigerianos morreram.

No mesmo sentido, em finais de Abril, o Gana convocou o embaixador sul-africano devido a vários “incidentes xenófobos”.

 

(Foto DR)

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