A decisão da multinacional francesa de confinar todos os trabalhadores no acampamento de Afungi está a gerar uma onda de falências no comércio, hotelaria e mercado imobiliário do distrito de Cabo Delgado.
Mantém-se tenso e sem solução à vista o braço-de-ferro entre os agentes económicos locais e a multinacional francesa TotalEnergies, na sede distrital de Palma, província de Cabo Delgado. Em causa está a política de confinamento obrigatório imposta a todos os trabalhadores no acampamento da empresa na península de Afungi, uma medida que abrange inclusive os funcionários das firmas subcontratadas que prestam apoio logístico ao projecto de gás natural liquefeito.
Segundo explicou Chemusse Issa, presidente do Conselho Empresarial Distrital de Palma, citado pelo Notícias, o diferendo arrasta-se desde o início do ano passado. A liderança da TotalEnergies surpreendeu o tecido empresarial local ao ordenar que os trabalhadores permaneçam ininterruptamente no acampamento, proibindo-os de circular ou pernoitar na vila, mesmo durante os seus períodos de folga.
De acordo com o líder empresarial, este isolamento tem tido um impacto devastador na economia de Palma, que se encontrava num processo gradual de reerguimento após as violentas incursões terroristas de Março de 2021. Chemusse Issa desabafou que a instalação das multinacionais que operam na indústria do gás não está a trazer os benefícios esperados para as comunidades, apontando que o negócio de hotelaria local, a restauração, o comércio geral e o mercado de arrendamento imobiliário simplesmente estagnaram, ditando a falência de muitos operadores.
Muitas famílias locais investiram as suas poupanças na construção e reabilitação de habitações com o objectivo de arrendá-las aos trabalhadores do projecto, encontrando-se agora endividadas e sem qualquer fonte de rendimento. Até a economia informal foi severamente afectada, resultando na quebra total do negócio de venda de pescado e produtos frescos que antes abastecia o mercado local.
A actuação da gigante francesa é vista com estranheza pela classe empresarial, dado que a própria TotalEnergies declarou o levantamento do estatuto de força maior. Os empresários locais passam assim a questionar publicamente o motivo de se manter o isolamento obrigatório da força de trabalho se o ambiente na região já é considerado seguro para avançar com o projecto.
O descontentamento agrava-se ainda mais com o regime de viagens imposto aos trabalhadores nativos de Palma, que são obrigados a embarcar num avião fretado pela empresa em direcção a Pemba assim que entram em período de folga. Ao serem deixados na capital provincial, e para conseguirem regressar para junto das suas famílias em Palma, estes trabalhadores vêem-se forçados a custear do próprio bolso passagens de transporte terrestre, vulgo chapas. Esta situação obriga-os a enfrentar estradas longas e perigosas, integrando colunas escoltadas por militares.
O Conselho Empresarial Distrital tem trabalhado de forma insistente junto do governo distrital e do executivo provincial no sentido de mediar a crise e reabrir canais de diálogo. Contudo, as sucessivas rondas negociais não têm surtido o efeito desejado face à inflexibilidade manifestada pela contraparte corporativa.
Conforme testemunhado e avançado pelo jornal Notícias, um encontro estratégico realizado no final do ano passado entre os agentes económicos e Maxime Rabiloud, director-geral da TotalEnergies em Palma, terminou sem quaisquer resultados palpáveis, apesar da promessa de novas auscultações meses depois.
Face à falta de consensos e ao sufoco financeiro, começam agora a levantar-se vozes na comunidade que equacionam a organização de manifestações junto às instalações da empresa. O objectivo deste movimento é exigir a suspensão total das operações logísticas até que o empresariado local e a população nativa passem a colher benefícios económicos directos e tangíveis da exploração de recursos na sua própria região.
Imagem: DR