Washington intensifica pressão sobre Maduro com bloqueio naval e apreensão de petroleiros no Caribe
O presidente norte-americano, Donald Trump, declarou esta segunda-feira que seria “inteligente” o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, renunciar ao poder, segundo noticiou a agência Reuters, numa escalada de tensões que tem colocado a região caribenha sob o maior cerco militar dos Estados Unidos na América Latina desde a crise dos mísseis de Cuba, em 1962.
Durante um pronunciamento na sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida, Trump deixou um aviso direto a Maduro: “Se ele quiser jogar duro, será a última vez que poderá fazê-lo”. O presidente norte-americano estava acompanhado pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, pelo secretário da Marinha, John Phelan, e pelo secretário de Estado, Marco Rubio, numa ocasião em que anunciou a construção de uma nova geração de navios de guerra “classe Trump”.
Bloqueio total ao petróleo venezuelano
A crise atingiu um novo patamar em 16 de dezembro, quando Trump ordenou um bloqueio total aos petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela. Na sua conta na rede social Truth Social, o presidente norte-americano afirmou que a Venezuela está “completamente cercada pela maior armada já reunida na história da América do Sul”.
“Só vai aumentar, e o choque para eles será algo que nunca viram antes”, escreveu Trump, acrescentando que a campanha continuará até que a Venezuela devolva aos Estados Unidos “todo o petróleo, terras e outros bens que roubaram”.
A administração Trump ainda não esclareceu quais seriam os bens norte-americanos alegadamente apropriados pelo governo de Maduro, embora analistas sugiram tratar-se da nacionalização de ativos de empresas como a ExxonMobil e a ConocoPhillips, ocorrida em 2007.
Apreensões e mortes no Caribe
Desde setembro, forças norte-americanas têm realizado uma série de operações no Mar das Caraíbas e no Pacífico que já resultaram em mais de 100 mortes. Washington justifica as ações como parte de uma ofensiva contra o narcotráfico, classificando os alvos como “narcoterroristas”.
Apenas em dezembro, os Estados Unidos interceptaram três petroleiros. A Guarda Costeira norte-americana capturou o navio-tanque Centuries no sábado passado, em águas internacionais próximas à Venezuela, e outro petroleiro foi detido no domingo. O primeiro navio havia sido apreendido a 10 de dezembro, transportando 1,9 milhões de barris de petróleo, segundo Maduro, que classificou a operação como “pirataria naval criminosa”.
Questionado sobre o destino da carga, Trump foi categórico: “Vamos ficar com ele. Talvez vendamos, talvez o usemos nas reservas estratégicas. Vamos manter os navios também”.
Aparato militar sem precedentes
O segundo semestre de 2025 entrou para a história como o período da maior mobilização militar dos Estados Unidos contra um país latino-americano desde a Guerra Fria. Porta-aviões, destróieres lançadores de mísseis, submarinos nucleares e caças de última geração passaram a operar na região, numa demonstração de força que ultrapassa intervenções históricas como as invasões de Granada e da Nicarágua nos anos 1980.
Entre as embarcações destacadas para a região encontra-se o porta-aviões Gerald R. Ford, o maior navio militar do mundo, com quatro mil soldados e 75 caças a bordo.
O ponto de inflexão foi a adoção oficial, pelo governo Trump, de uma doutrina que classifica organizações ligadas ao tráfico de drogas como “terroristas internacionais”, abrindo brechas legais para o uso direto da força militar. Ao associar o governo Maduro ao chamado “narcoterrorismo”, Washington passou a justificar bloqueios navais e bombardeamentos seletivos como parte de uma guerra global ao terrorismo.
Venezuela leva caso à ONU
A pedido da Venezuela, com apoio da Rússia e da China, o Conselho de Segurança das Nações Unidas reúne-se esta terça-feira em Nova Iorque para discutir a escalada militar norte-americana no Caribe.
O ministro dos Negócios Estrangeiros venezuelano, Yvan Gil, leu na televisão estatal uma carta assinada por Maduro e dirigida aos países membros da ONU, alertando que o bloqueio dos Estados Unidos “afetará o fornecimento de petróleo e energia” a nível global.
“A Venezuela reafirma a sua vocação para a paz, mas também declara com absoluta clareza que está preparada para defender a sua soberania, a sua integridade territorial e os seus recursos de acordo com o direito internacional”, afirmou Gil.
Reações Internacionais
A Rússia manifestou “profunda preocupação” com as operações norte-americanas no Caribe. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, expressou numa conversa telefónica com o seu homólogo venezuelano o “total apoio” de Moscovo ao governo de Maduro, alertando para potenciais consequências para a estabilidade regional e para a navegação internacional.
A China juntou-se às críticas, com o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian, a declarar que Pequim “opõe-se a sanções unilaterais sem base legal ou autorização do Conselho de Segurança da ONU e a qualquer ação que fira a soberania e a segurança de outros países”.
No plano interno, a Venezuela respondeu à pressão militar norte-americana com a redução da atividade aérea civil, revogando as licenças de companhias como TAP, Iberia, Turkish Airlines, Avianca, Latam Colombia e Gol, acusadas de se “unirem aos atos terroristas” promovidos pelos Estados Unidos.
Maduro, por seu lado, ripostou às ameaças de Trump, afirmando que o presidente norte-americano “estaria em melhor situação” se se concentrasse nos problemas internos do seu país em vez de ameaçar Caracas. O líder venezuelano convocou as Forças Armadas, em particular a Força Aérea, para um estado de “alerta, prontos e dispostos” a defender a soberania nacional.
Contexto petrolífero e económico
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e produz cerca de um milhão de barris por dia. Atualmente, apenas a Chevron está autorizada a transportar combustível venezuelano para os Estados Unidos, devido a um embargo imposto por Trump em 2019 durante o seu primeiro mandato — cerca de 200 mil barris diários em navios não sancionados, que permanecem a salvo das operações militares.
Analistas alertam que, se o bloqueio de Trump alcançar o objetivo, terá implicações significativas para a já fragilizada economia venezuelana, extremamente dependente do petróleo. Especialistas calculam que as exportações possam cair 45% nos próximos quatro meses, reduzindo drasticamente a entrada de divisas num país que já enfrenta hiperinflação.
A Organização das Nações Unidas e países como México e Alemanha pronunciaram-se sobre a situação, apelando à desescalada e demonstrando preocupação com a transformação do Caribe — historicamente declarado “zona de paz” — num novo palco de confrontação militar.
A crise marca um novo capítulo no intervencionismo norte-americano na América Latina, recolocando a região no centro da estratégia militar global de Washington e reacendendo memórias históricas de um continente repetidamente tratado como zona de influência, não como região soberana.
Imagem: DR