Alternativas de Financiamento para PMEsMoçambique – Mercado de Capitais

As Pequenas e Médias Empresas (PMEs) em Moçambique representam cerca de 98% dotecido empresarial moçambicano, sendo cruciais para a geração de emprego e absorção de mão de obra do sector informal.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2023, o país contava com aproximadamente 91.752 empresas activas, das quais a maioria são PMEs, enquanto apenas 925 (2%) eram consideradas grandes empresas.

De acordo com o Banco Mundial (2023), as PMEs são fundamentais para o desenvolvimento económico e social, especialmente em economias emergentes como Moçambique. Elas contribuem para a dinamização e diversificação da economia, actuando em sectores como

agricultura, comércio, serviços e indústria. Além disso, as PMEs estimulam o desenvolvimento e conteúdo local, promovem um desenvolvimento inclusivo ao fornecer oportunidades para jovens, mulheres e populações rurais, e são reconhecidas pela sua agilidade e capacidade de inovação, adaptando-se rapidamente às exigências do mercado e sendo pioneiras em novos produtos e serviços.

No entanto, as PMEs ainda enfrentam barreiras estruturais ao acesso ao financiamento, por meio de instituições financeiras tradicionais (Bancos comerciais). Segundo os dados do Banco de Moçambique (2025), apenas 3,5% do crédito total à economia é absorvido por

PMEs. Essas barreias incluem falta de garantias reais, taxas de juro elevadas, fraca capacidade de endividamento, capacidade técnica e financeira reduzida, inexistência de histórico de crédito, elevados custos de transação, e bem com a regulação e burocracia bancária.

A dependência do crédito bancário, com exigências de colaterais e spreads elevados, limita a capacidade de investimento e expansão dessas empresas. Em resposta as dificuldades enfrentadas por estas empresas, nos últimos tempos, os Bancos comercias tem introduzido novos modelos financeiros de trade finance tais como,

  1. a) Desconto de Facturas – que permite às empresas antecipar receitas e reforçar, assim, a sua liquidez sem recorrer ao crédito tradicional, respondendo eficientemente aos seus desafios de tesouraria.
  2. b) Factoring – permite às empresas venderem suas contas a receber a uma instituição financeira (factor), recebendo até 90% do valor da factura imediatamente. O Alternativas de Financiamento para PMEs Moçambique – Mercado de Capitais C2 General factoring garante liquidez rápida, sem criação de dívida, e redução da carga administrativa.
  3. a) Supply chain finance (SCF)- financiamento liderado pelo comprador, permitindo que fornecedores recebam antecipadamente por meio de uma instituição financeira. O SCF melhora o fluxo de caixa de fornecedores e fortalece relações comerciais (AfD, Banco africano de Desenvolvimento, 2020).

Entre outros como cartas de crédito e garantias bancárias, contudo, apesar do potencial transformador desses instrumentos, o acesso por parte das PMEs continua limitado. Neste contexto, as PMEs precisam buscar novas alternativas de financiamento, fora do mercado de crédito, que sejam mais acessíveis, flexíveis e adaptadas à sua realidade operacional.

Desde a crise financeira global de 2008, os mercados de capitais têm ganhado relevância como uma fonte alternativa e estratégica de financiamento para empresas, especialmente em economias emergentes como Moçambique.

O financiamento via mercado de capitais representa uma alternativa estratégica para PMEs, ao contrato do crédito bancário, que frequentemente exige garantias e spreads significativos, o mercado de capitais permite às empresas emitir instrumentos financeiros como acções, obrigações corporativas e de tesouro e papel comercial, captando recursos diretamente dos investidores.

A Bolsa de Valores em Moçambique, através de iniciativas como o “Segundo Mercado”, em 2010, e com o lançamento do Terceiro Mercado, em 2019, como uma solução calibrada para a realidade da maioria das empresas moçambicanas, onde a falta de contabilidade organizada e de auditoria às demonstrações financeiras e a reduzida dispersão accionista da sociedade, são os principais factores que impedem a sua admissão à cotação oficial.

O Terceiro Mercado (mercado de incubação), preparação e de transição, veio a constituir resposta às necessidades das PMEs nesta situação, ao permitir que as mesmas se possam admitir à cotação, mas assumindo o compromisso público de que num horizonte temporal de três anos, a empresa alcance os requisitos em falta, passando automaticamente para um dos dois mercados bolsistas oficiais, o Mercado de Cotações Oficiais ou o Segundo Mercado.

Apesar da existência do Segundo Mercado (desde 2010) e do Terceiro Mercado (desde 2019), que foram criados para facilitar o acesso das PMEs ao financiamento via mercado de capitais, os resultados ainda são modestos: apenas 1 PME está cotada no Segundo Mercado, apenas 3 PMEs estavam cotadas no Terceiro Mercado até abril de 2025 e nenhuma PME utilizou a BVM para emissão de títulos de dívida, como obrigações ou papel comercial, (Bolsa de Valores, 2025).

Diante das limitações do crédito bancário e do acesso restrito ao mercado de capitais, é essencial explorar alguns mecanismos inovadores e complementares, tais como:

– Fintechs e plataformas digitais que oferecem crédito com menos burocracia, análise de dados em tempo real e produtos personalizados; – Capital de risco e investidores-anjo, estes podem apoiar PMEs com alto potencial de crescimento, especialmente em sectores tecnológicos ou inovadores;

– Crowdfunding (financiamento colectivo) visa levantar fundos directamente do público, ideal para projetos com apelo social ou comunitário;

– Cooperativas de crédito e associações locais; e

– Programas públicos e garantias de crédito como o Fundo de garantia mutuária de Moçambique, criado 2025 com um valor estimado de USD 300 milhões.

Entretanto, para materialização destas soluções inovadoras é necessário um trabalho de política fiscal e monetária coordenada.

Moçambique precisa investir em reformas legais, infraestrutura digital e financeira, políticas de incentivo e supervisão moderna para criar um ecossistema onde fintechs, crowdfunding, capital de risco, factoring e leasing possam prosperar e realmente apoiar as PMEs, somente assim podemos realçar o real potencial das PMEs na economia moçambicana.

O Governo tem um papel importante a desempenhar na construção de um sector das PMEs próspero, através dum diálogo permanente, da política económica em geral e em particular, da elaboração de leis e regulamentos apropriados, e na construção de uma infraestrutura institucional central, regional e local de apoio.

As PMEs devem estar inseridos em um sistema fiscal simples, transparente e de baixo custo, sendo percebido como justo. Actualmente, mais de metade das PMEs operam no comércio, concentrando-se em actividades de importação e venda de produtos acabados.

Deve-se passar por uma transição do sector comercial para a industrialização, transformação da matéria-prima local e desenvolvimento de cadeias produtivas internas.

Ademais modelos de política monetária restritiva, podem permitir que os investidores institucionais busquem novas soluções de investimento, com a redução das taxas de juro, os investimentos tradicionais como depósitos a prazo e bilhetes do tesouro tornam-se menos atractivos.

Seguradoras e fundos de pensão, que buscam retornos estáveis e de longo prazo, podem diversificar seus portfólios investindo em acções de PMEs.

Texto: Paulo Matavela

Economista e Consultor Financeiro

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