Quem decide em Cabo Delgado: Governo ou Paul Kagame?

Dinis Tivane traça um paralelo brutal entre a honra militar internacional e a realidade negligenciada dos soldados moçambicanos. O conselheiro político recorda o caso de William Kyle Carpenter, o soldado norte-americano que, em 2011, se lançou sobre uma granada para salvar o seu melhor amigo.

Após mais de 40 cirurgias de reconstrução facial e corporal, Carpenter foi condecorado em 2014 com a Medalha de Honra, a distinção máxima dos Estados Unidos. Para Tivane, este exemplo de gratidão estatal serve apenas para sublinhar o abandono a que os jovens moçambicanos são votados no teatro de operações de Cabo Delgado.

Uma guerra sem transparência
De acordo com Dinis Tivane, a guerra no Norte de Moçambique é conduzida sob um manto de obscuridade que desrespeita a vida humana. O assessor denuncia que os jovens enviados para a frente de combate enfrentam uma “guerra nada transparente”, onde a morte não é dignificada. “Quando morrem, são enterrados em valas comuns e nunca se avisa os familiares, mesmo aqueles que solicitam informação”, afirma com gravidade.
A descrição que Tivane faz das condições logísticas é desoladora. O autor classifica as forças moçambicanas como um “exército de pedintes”, alegando que os soldados são abandonados à sua sorte, sem alimentação adequada, sem subsídios para o sustento das suas famílias e, mais grave ainda, sem o material de guerra essencial. Faltam rádios, localizadores, sistemas de antecipação de risco e munições suficientes para garantir a sobrevivência e a eficácia das operações.

O poder do decreto e o silêncio da Assembleia
Dinis Tivane reforça a tese, também defendida por vozes como Paulo Marrengula e Bertolino Capitine na mesa redonda da COTE, de que as Forças Armadas são geridas por um secretismo institucionalizado. As decisões estratégicas e estruturantes desta guerra não passam pelo escrutínio público nem pelo consenso nacional; são ditadas por decretos do Conselho de Ministros ou do Ministério da Defesa.
Neste cenário, a Assembleia da República — que deveria ser o centro das grandes decisões do Estado — é, segundo Tivane, relegada para um plano de “inexistência”. O autor lamenta que, perante o informe presidencial, os deputados se limitem a aplaudir, abdicando do seu papel de fiscalização e soberania.

A questão da soberania estrangeira
A crítica de Dinis Tivane culmina numa dúvida que fere a autonomia nacional. Perante a opacidade do comando e a precariedade das forças locais, o autor confessa-se inclinado a acreditar que as decisões reais sobre o destino de Cabo Delgado possam estar a ser tomadas por potências externas, nomeadamente pelo Presidente ruandês Paul Kagame, que conta com seu exército na província em causa.
Para Tivane, enquanto a guerra continuar a ser tratada como um assunto secreto e as vidas dos soldados forem descartadas no anonimato das valas comuns, Moçambique continuará a falhar com aqueles que juraram defender a pátria.

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