Um recluso custa mais ao Estado do que um trabalhador com salário mínimo em Moçambique

Em Moçambique, os números revelam uma contradição social que levanta sérias questões sobre as prioridades do Estado: manter um recluso nas cadeias nacionais custa mais do que pagar um ano inteiro de salário mínimo a um trabalhador.

De acordo com informações divulgadas pelo Ministério da Justiça, cada recluso em regime fechado representa um encargo anual de cerca de 150 mil meticais para o Estado. Este montante cobre despesas com alimentação, vigilância, segurança, cuidados de saúde e funcionamento das infra-estruturas prisionais.

Em sentido oposto, milhares de trabalhadores moçambicanos recebem salários mínimos mensais que variam entre cerca de 6.700 e 10 mil meticais, conforme o sector de actividade. No final de um ano, muitos desses cidadãos não chegam a auferir o equivalente ao que o Estado despende para manter um único recluso durante o mesmo período.

A comparação não põe em causa o direito dos reclusos a condições humanas e dignas de cumprimento de pena, mas evidencia a fragilidade da política salarial e a desvalorização do trabalho. Em vários sectores, o salário mínimo não cobre o custo básico de vida, obrigando famílias inteiras a sobreviver com rendimentos insuficientes.

Enquanto isso, o próprio Governo reconhece que o sistema prisional é oneroso e tem apontado medidas alternativas, como a vigilância electrónica, como forma de reduzir despesas públicas. Ainda assim, a disparidade entre o custo da reclusão e o rendimento de quem trabalha legalmente continua a gerar indignação.

Num país onde o emprego formal é apresentado como caminho para a estabilidade social, os dados levantam uma questão incontornável: por que razão trabalhar continua a render menos do que o custo de manter alguém privado de liberdade? A resposta passa por escolhas políticas e pela urgência de uma reflexão séria sobre justiça social e dignidade do trabalho em Moçambique.

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