O Diretor Executivo do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) traçou um cenário sombrio sobre a realidade atual de Moçambique. Nuvunga acusa o Presidente Daniel Chapo de proteger a corrupção do seu antecessor e critica o “arquivamento” do processo contra Manuel Chang.
No seu posicionamento ao Estado da Nação, o activista e académico Adriano Nuvunga afirmou que Moçambique está longe de um desenvolvimento sustentável e inclusivo. Para o diretor do CDD, o país vive um momento de “consolidação” de um sistema que prejudica estruturalmente os moçambicanos, sustentando a sua tese em quatro pontos fundamentais.
1. Falta de justiça para as vítimas de manifestações
Nuvunga denunciou o que considera ser uma inversão de prioridades na gestão das consequências das recentes manifestações pós-eleitorais. Segundo o activista, o Governo apressou-se a libertar fundos públicos para indemnizar empresários afetados pelos protestos — incluindo, alega, “donos de restaurantes que serviram a campanha eleitoral” — enquanto ignora as vítimas humanas.
“Não houve apoio substantivo ao povo, muito menos justiça para os aproximadamente 500 moçambicanos barbaramente assassinados pela polícia”, declarou Nuvunga, acusando a Procuradoria-Geral da República (PGR) de estar “sentada em cima” dos processos de responsabilização.
2. Um “monólogo” em vez de diálogo
Sobre a necessidade de uma reconciliação nacional, o académico rejeita a ideia de que exista um diálogo genuíno em curso. “Isto não é diálogo, é um monólogo de um grupo que dirige as coisas e fala entre si”, afirmou.
Nuvunga lançou questões críticas sobre a natureza violenta dos sufrágios no país: “Porque é que as eleições em Moçambique são fatores de instabilidade? Porque é que morrem moçambicanos?”. A resposta, sustenta, reside na falta de independência das instituições, que descreve como estando “capturadas” pelo partido Frelimo, impedindo que a vontade popular seja respeitada.
3. A legitimidade de Daniel Chapo e a “proteção” a Nyusi
O terceiro ponto incide sobre a governação de Daniel Chapo. Embora o novo Presidente reivindique legitimidade, Nuvunga argumenta que esta só será plena quando houver uma rutura com a impunidade do passado.
O activista estabeleceu uma comparação com mandatos anteriores: “Quando Guebuza tomou posse, um mês depois já havia um ministro na Procuradoria por causa da corrupção. Quando Nyusi assumiu o poder, membros do governo anterior foram processados. Estamos em dezembro e não há nada”. Para o diretor do CDD, Daniel Chapo está a “proteger a corrupção de Filipe Nyusi”, a quem responsabiliza por levar o país ao “abismo”.
4. O “tapete vermelho” para Manuel Chang
Por fim, Nuvunga reagiu com indignação ao alegado arquivamento do processo contra o antigo Ministro das Finanças, Manuel Chang, recentemente condenado nos EUA pelo caso das “Dívidas Ocultas”.
O activista acusa a nova administração de ter como um dos primeiros atos o encerramento do processo que previa o julgamento de Chang em solo moçambicano após a sua extradição. “Estão a preparar o regresso de Chang como aquele indivíduo que caminha triunfalmente sobre o tapete vermelho”, concluiu, sinalizando o que considera ser o fim da esperança numa responsabilização interna pelo maior escândalo financeiro do país.
Imagem: CDD